Boletim Cooperativista comentado

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COOPERAÇÃO, COOPERATIVISMO E MOVIMENTO COOPERATIVO

  por Fernando Ferreira da Costa

  Boletim Cooperativista nº 89

  Fevereiro de 1961

 

Para se poder aquilatar as possibilidades efectivas do cooperativismo no mundo contemporâneo, parece-nos indispensável situá-lo historicamente. Antes de mais interessa esclarecer que damos significados diferentes a três termos frequentemente usados: COOPERAÇÃO, COOPERATIVISMO e MOVIMENTO COOPERATIVO. Como claramente anota G.D.H. Cole, a COOPERAÇÃO é expressa por diversas formas através da história da humanidade, antecedendo consequentemente a formação de sociedades cooperativas. Estas, porém, têm o seu surto intimamente ligado ao desenvolvimento do capitalismo industrial constituindo-se como associações de auto-defesa económica dos operários. Após as primeiras experiências, que constituem um elo de ligação entre as preocupações dos trabalhadores rurais e os urbanos, (como a constituição de cooperativas de moagem), as sociedades cooperativas constituídas entre 1830 e 1850 expressam ou o desejo de emancipação rápida e directa dos operários através da criação de cooperativas de produção, ou a necessidade de associação para a auto-defesa através das cooperativas de consumo. Mesmo neste último caso, o desejo de emancipação ficou bem patenteado no estatuto da Sociedade de Rochdale, quando se prevê a criação de «colónias autónomas» de cooperadores. É nesta fase que o COOPERATIVISMO começa a ter forma como processo de libertação económica. Cedo, porém, os cooperadores concluem que o cooperativismo não pode desenvolver-se num apertado ciclo local, e que o sonho Owenita das «colónias autónomas» tem de ser substituído pela cooperação à escala nacional e internacional. A constituição do armazém cooperativo inglês e a fundação em 1892 da «Aliança Internacional das Cooperativas de Produção», três anos mais tarde transformada em «Aliança Cooperativa Internacional», anunciam o alvor do MOVIMENTO COOPERATIVO.

Podemos pois considerar o movimento cooperativo como uma resposta ao capitalismo industrial. Note-se que o cooperativismo não se tinha expressado nas anteriores fases do capitalismo, comercial e financeiro, surgindo exactamente após a criação dos centros urbanos industriais, em que as condições de vida das classes trabalhadoras eram penosas, agravadas por um constante êxodo das populações rurais.


A partir dos fins do século dezanove o capitalismo prosseguiu a sua evolução, assinalada por crises e depressões, é certo, mas acentuando-se apesar disso o alargamento dos mercados, o desenvolvimento das organizações monopolistas e as consequentes alterações na estrutura dos Estados, que, para serem instrumentos eficientes desse processo económico, viram reforçados os seus poderes de intervenção.


É evidente que o movimento cooperativo apresenta durante este período um processo evolutivo que constitui um esforço de adaptação às novas circunstâncias. O «cooperativismo dos consumidores» defendido entre outros por Ch. Gide, afasta-se cada vez mais da apologia ingénua dos precursores como King e Owen. As formas de cooperativismo mais ou menos afastadas de uma «integração cooperativa», como as de produção agrícola e industrial, habitação, etc., perdem acentuadamente terreno em relação à solução dos mesmos aspectos através das Federações de Cooperativas de consumo. As experiências britânica e sueca encorajam os doutrinadores, como António Sérgio, a desenvolverem os princípios da cooperação integral da Escola de Nimes. Outros doutrinadores porém, como Cole, reconhecendo o valor do cooperativismo das consumidores associados e o importante papel que lhe caberá numa futura sociedade, consideram que a sua completude e expansão poderão ter forma conveniente desde que integradas numa sociedade socialista.

 

 
BREVES CONSIDERAÇÕES

  por João Salazar Leite ( joaoleite@cases.pt )

 

A escolha deste texto tem a ver com a necessidade de os cooperadores conhecerem conceitos e expressões que são próprias do seu mundo. Por isso costumo ser tão exigente quando me deparo com um cooperador a falar em sócios ou em associados, devendo saber que em Portugal as expressões lhe estão vedadas desde 1980 com o Código Cooperativo autónomo, saídas as cooperativas da legislação comercial onde haviam estado desde 1888.

Quanto à história relatada pelo articulista, sabe-se hoje que mesmo fora do capitalismo industrial, designadamente nos territórios hoje alemães e de outros países centrais da Europa, surgiram cooperativas agrícolas e de crédito ligadas à agricultura (Raiffeisen) ou de crédito urbano (Schulze-Delitsch).


COOPERATIVAS DE MÃO-DE-OBRA

  por Vasco de Carvalho

  Boletim Cooperativista nº 93

  Junho/Julho de 1961

 

As cooperativas de mão-de-obra pertencem ao ramo menos denso da cooperação. Com efeito, o seu número é insignificante se o compararmos com o das cooperativas de consumo ou de produção.

Cooperativas de mão-de-obra são as que associam operários com o fim de efectuarem determinadas tarefas em oficinas ou obras alheias, quer usando as suas próprias ferramentas, quer usando as do empresário, sendo elas que estabelecem as condições de trabalho e distribuem a remuneração.

As cooperativas de mão-de-obra são socialmente de comprovada vantagem, sobretudo quando associam operários e trabalhadores cujo emprego não é fixo quer sob o ponto de vista de local onde se exerce o trabalho quer no da entidade patronal. Estão neste caso os operários e os trabalhadores da construção civil, os trabalhadores agrícolas e os operários dos portos, para não falar de outros.


Uma vantagem resulta das cooperativas se tornarem o centro de procura de emprego e de mão-de-obra. Os empresários sabem poder encontrar nelas a mão-de-obra especializada de que precisam. Outra vantagem está em serem as cooperativas que estabelecem com os empresários o contrato de trabalho. Tanto restes como os operários fixam de antemão os direitos e deveres mútuos.


Quando o contrato de trabalho é feito na base da empreitada, ela representa uma segurança para o empresário que pode limitar-se, então, a exercer a fiscalização que entenda necessária sobre o cumprimento do contrato. Neste caso os operários cooperadores agem como empreiteiros ou subempreiteiros e são individualmente responsáveis pelo cumprimento do contrato. A sua situação moral é portanto diferente da do operário que depende directamente dos caprichos e do humor do patrão ou dos seus capatazes, muitas vezes tecnicamente mais competentes do que ele.


É exactamente no domínio da competência técnica que a cooperativa de mão-de-obra é muito deficiente. De um modo geral os operários e os trabalhadores ou não chegaram a frequentar a escola ou abandonaram-na muito cedo. Entre os profissionais da construção civil ou da agricultura esta situação é ainda mais evidente. A sua formação profissional não foi obtida em escolas ou em cursos especiais, foi-o em contacto com os operários já feitos………

Deste modo as cooperativas contribuem para o progresso profissional e para o desenvolvimento industrial e ainda ajudam a elevar o nível de vida, visto que os ganhos dependem também do rendimento da mão-de-obra.


Parece-nos que as vantagens sociais expostas justificam que o Estado se interesse pelo aparecimento e desenvolvimento deste tipo de cooperativas. O seu auxílio é desejável, senão indispensável, mas a iniciativa da cooperativização da mão-de-obra deve partir dos próprios operários. O auxílio do Estado virá mais facilmente se a iniciativa tomar corpo e se revelar socialmente benéfica.


E não se diga, ou se pense sequer, que iniciativas desta ordem não têm viabilidade de começo ou não podem progredir. A atestar o contrário está patente o formidável exemplo que constitui a Cooperativa dos Operários Pedreiros Portuenses, cuja função social é inegavelmente notável, e que é ao mesmo tempo motivo de orgulho da indústria nacional.

 

 
BREVES CONSIDERAÇÕES

  por João Salazar Leite ( joaoleite@cases.pt )

 

Outros são os tempos, outra a educação obrigatória, outra a legislação aplicável a experiências do tipo das descritas. Produtores operários ou de serviços, os membros das cooperativas que em Portugal hoje se associam em cooperativas semelhantes às descritas, necessitam de estabelecimento, organização contabilística tipificada, estatutos devidamente registados.

O exemplo é, no entanto, importante para reflexão, sobretudo em época de elevado desemprego. Ele é uma saída possível para a criação do auto-emprego cooperativo, um emprego que possibilite condições de trabalho mais seguras e dignas, já que são os próprios trabalhadores que têm nisso interesse.

Por exemplo no Brasil, este tipo de cooperativas tem vasta repercussão prática, e deveria ser motivo de reflexão entre políticos, sindicalistas, cooperativistas, permiti-lo cá também.


ANTÓNIO SÉRGIO E AS ORIGENS DO BOLETIM

  por Fernando Ferreira da Costa

  Boletim Cooperativista nº 100

  Fevereiro de 1962

 

Há onze anos, em Janeiro de 1951, conversava com António Sérgio em sua casa na companhia de João Sá da Costa, quando nos foi sugerida a criação de um boletim cooperativista. António Sérgio, com persuasão irradiante de apóstolo laico, expôs-nos a sua intenção e, sem atender à minha confessada ignorância do ideário cooperativo, desenhou num papel a maqueta do primeiro número. Conhecia-me desde os bancos do curso liceal onde fora meu professor de filosofia, tinha assistido ao movimento de renovação do espírito primitivo do cristianismo que iniciara com alguns camaradas, contribuíra com a sua avisada opinião para as edições «metanóia», induzindo-nos a contactar com o bom padre Joaquim Alves Correia cuja colaboração e amizade nos acompanhou para além do seu exílio, aprovara a nossa atitude pacifista que me levou à recusa do serviço militar, e sabia que, no momento daquele encontro, estava persistentemente procurando salvar a experiência de uma comunidade rural, que, com escassos amigos, tentara fundar em Trás-os-Montes. E foi por este facto que a primeira edição do Boletim foi composta em Vila Real.

Durante aquele ano não foram publicados mais de 7 números que incluíam apenas colaboração de António Sérgio, em seu nome e sob os pseudónimos de Carlos Plácido e Álvaro Clarival, Lúcia Nobre, João Sá da Costa, Luísa Dacosta, e eu, que além de colaboração anónima utilizei também o pseudónimo de Pedro Montanha. Esta situação denunciava o isolamento em que nos encontrávamos e traduzia-se numa tiragem limitada a 1000 exemplares que mesmo assim não conseguíamos esgotar. A distribuição do Boletim era efectuada através de uma incompleta lista de cooperativas e pessoas interessadas, que Lúcia Nobre em Lisboa e eu em Vila Real tínhamos tomado a nosso cargo.


Não podia deixar de parecer estranho às cooperativas que recebiam aquele pequeno e pobre jornal, os nossos apelos de colaboração vindos de um Boletim que afirmava ser coordenado por António Sérgio, mas cuja organização parecia partir de Vila Real de Trás-os-Montes. Entretanto já o encargo financeiro da sua publicação começava a limitar-nos as possibilidades, quando surgiu a primeira adesão do Porto: a Cooperativa dos Pedreiros portuenses rompera o ciclo da hesitação requisitando 400 exemplares. Até Outubro a Segunda Comuna, a Aliança Operária e os Unidos do Volante, em Lisboa, a Cooperativa da Foz, no Porto, e a Cooperativa Piedense, na margem Sul do Tejo, afirmaram a sua adesão assegurando assim a continuidade do Boletim.


O número 8 de Janeiro de 1952, marca um novo e acentuado progresso. A colaboração de José de Castro, significava mais do que um novo amigo, expressava um movimento das cooperativas do Porto, de que, sob a sua influência, resultou a criação da primeira Junta de Compras. O Boletim tinha decididamente rompido o limitado ciclo de colaboradores iniciais e começava a tornar-se porta-voz de uma nova tentativa de tipo federativo. Entretanto em Lisboa, começou a processar-se um movimento semelhante orientado pela Cooperativa segunda Comuna, de Alcântara. De facto, em Julho desse ano o número 12 do Boletim inclui o Regulamento da Junta de Compras de Lisboa, de onde mais tarde viria a surgir a Unicoope.


Esta nova fase do movimento cooperativo foi, no entanto, prejudicada por um brusco eclipse do Boletim durante mais de dois anos, Esse hiato representou também para mim um período de graves preocupações na minha vida privada. O colapso da experiência comunitária que empreendera, deixara-me sobrecarregado com pesados encargos, obrigando-me a aceitar emprego em Lisboa, e a lutar durante largos meses para satisfazer compromissos financeiros assumidos. Entretanto, tinham-se quebrado os vínculos que me prendiam ao movimento de renovação cristã, e o cooperativismo integral de António Sérgio, começava no meu espírito a ficar sobreposto pela concepção de um cooperativismo integrado numa sociedade socialista. Foi com esta atitude que em princípios de 1954 me dirigi à rua da Cascalheira, em Alcântara, onde tive o prazer de verificar que a Junta de Compras de Lisboa continuava a sua actividade e se abriam perspectivas para a estruturação de um armazém abastecedor, cuja constituição se veio a concretizar no ano seguinte. Os trabalhos decorriam no sótão da Segunda Comuna, cooperativa de tradições anarquistas, onde, entre cebolas penduradas, sacaria e caixotes diversos, tive oportunidade de conhecer António Rodrigues Graça, cuja actividade incansável é gratamente recordada, Carlos Nogueira, Desidério Costa, Fernandes Moreira e muitos outros que a pouco e pouco se nos foram juntando.


No número 13 de Outubro de 1954 anunciava-se numa editorial do Boletim, por mim redigida, que Rodrigues Graça explicitava no artigo «Que Pretendemos», e que Fernandes Moreira sublinhava no artigo «De Junta a Armazém». Em separata era publicado um esboço do Projecto de Estatuto de um Armazém Abastecedor, para o qual Desidério Costa, tinha acentuadamente contribuído. Estava iniciada uma nova fase e surgia de facto um novo Boletim: o período inicial fora ultrapassado pois as cooperativas, agora despertas, tomavam nas suas mãos a direcção do seu próprio futuro. Do número 13 ao número 100 foi uma longa caminhada, a que conto referir-me num trabalho futuro, e que conduziu à estruturação do movimento cooperativo actual. Em todo esse percurso nos acompanhou António Sérgio, encorajando e esclarecendo a nossa actividade. Ao cabo de onze anos de luta todos os que nela participaram sentem orgulho de ver o seu nome símbolo de um apostolado profundo, como coordenador do Boletim. Entre o seu cooperativismo ideal e os nossos conceitos pragmáticos da cooperação, a que correspondiam de certo modo a primeira e a segunda fases do boletim, houve necessariamente um embate de opiniões divergentes. Mas António Sérgio foi sempre o pedagogo subtil, que marca profundamente quem dele discorda, o mestre da polémica que se torna amado de quem o contradita.

 

 
BREVES CONSIDERAÇÕES

  por João Salazar Leite ( joaoleite@cases.pt )

 

Foge este texto à lógica dos anteriores, mas trata-se de uma peça histórica que explica muito do que se passou no Boletim (sobre o que colocámos algumas questões em anteriores considerações, agora explicadas), e que se sente à medida que se vai descobrindo o Boletim número a número até chegar a este nº 100.

Fica também explicado o choque teórico/práticos de que Sérgio fala em artigo comentado e o progressivo afastamento de Sérgio da escrita ativa no Boletim. Ferreira da Costa vem defender para si parte da história cooperativa portuguesa, e liga as fases do Boletim à sua própria vida. A história cooperativa portuguesa, vista hoje, prefere recordar que ambos são parte importante dela, e que Costa soube honrar a confiança inicial de Sérgio sempre que lhe foi, depois de Abril, dada a oportunidade de o fazer.


TEMOS DE ELEVAR O NÚMERO E O NÍVEL DAS COOPERATIVAS AGRÍCOLAS

  por Franco Falcão

  Boletim Cooperativista nº 101

  Março de 1962

 

«O cooperativismo será, sem dúvida, o melhor processo de a lavoura poder enfrentar os problemas da produção e comercialização dos produtos agrícolas. Por outro lado, a orgânica cooperativa tem o mérito de criar e fortalecer no espírito dos lavradores válidos sentimentos de cooperação e de solidariedade, absolutamente indispensáveis à melhoria do rendimento do trabalho, da exploração rural dos capitais investidos. As cooperativas fomentam o espírito associativo», como tão criteriosa e oportunamente afirmou o abalizado jornal O Século, sempre solícito em versar, com a maior isenção, os problemas respeitantes aos mais variados sectores da vida nacional. Só por intermédio das cooperativas os produtores agrícolas podem ver valorizados os seus produtos, não só pela colocação directa nos mercados, mas ainda pelo estímulo que podem provocar na melhoria da qualidade, calibragem e apresentação dos produtos extraídos da terra. As cooperativas não são contra o comércio, pelo contrário estimulam a actividade dos comerciantes, oferecendo-lhes directamente os produtos dos seus associados. O cooperativismo mostra-se apenas inimigo da rede interminável de intermediários, cuja resistência procura vencer, no interesse do produtor e em defesa do consumidor. Isto porque os produtos agrícolas saem da casa do produtor em muitos casos trinta ou quarenta vezes mais baratos do que são vendidos ao público, o qual, desconhecendo os preços de origem, se revolta injustamente contra a lavoura, esquecendo-se ou ignorando que é o intermediário que lhe torna a vida negra.


O que é preciso é que o movimento cooperativista, se intensifique nos sectores onde o cooperativismo já encontrou o clima propício à sua expansão e se entusiasme nas restantes actividades, mormente na pecuária, na pomicultura, nos produtos hortícolas e nas espécies florestais. Temos de elevar o nível das cooperativas agrícolas à escala apresentada por outros países, como a Espanha, a França, a Holanda, a Bélgica, a Irlanda, e, principalmente a Dinamarca, onde o cooperativismo de produção, transformação e colocação dos produtos agrícolas e a sua exportação para o estrangeiro constituem a base do desenvolvimento económico daquele país a que Luzzati chamou a «Pérola da coroa da cooperação internacional». Todavia, o cooperativismo, para bem desempenhar a sua missão, deve movimentar-se à margem de paixões ou quaisquer actividades de ordem política para que assim as cooperativas não vejam deturpado o seu sentido fundamentalmente económico ou comprometidas as suas benéficas intenções, ao serviço do interesse da actividade rural. As cooperativas agrícolas como instrumentos de acção económica devem orientar-se por princípios ordeiros, apolíticos e de insuspeito espírito de classe, pois só assim poderão decididamente contribuir para o acréscimo do rendimento da agricultura portuguesa e para o enriquecimento geral da Nação. Na cooperação deve afastar-se tudo o que possa provocar contendas, ódios ou inimizades, de modo a que, dominando resistências e vencendo egoísmos, se torne possível através de uma fecunda lealdade e compreensão elevar os sentimentos de solidariedade entre os homens na defesa de interesses comuns. Só com um movimento cooperativo, moral, político e socialmente são é possível criar-se uma força associativa suficientemente eficaz e esclarecida ao serviço da lavoura, nas directrizes da produção, na disciplina da distribuição e na moralização dos mercados.

 

 
BREVES CONSIDERAÇÕES

  por João Salazar Leite ( joaoleite@cases.pt )

 

O Boletim publica, e em comentário a redação ‘regista com prazer’, um artigo do Século, em que se transcrevem passagens de um discurso do deputado Franco Falcão na Assembleia Nacional.

O cooperativismo seria por esta época regularmente motivo de artigos no Século e no Diário de Lisboa, que o Boletim depois republicava, o que era sinal de que havia quem acompanhasse a sua progressiva estruturação vertical e proliferação na sociedade. Publicava também o Boletim pareceres jurídicos de serviços públicos e acórdãos judiciais favoráveis ao cooperativismo, um daqueles de Marcello Caetano, que vira já um seu texto publicado pelo Boletim. Surgiam também regularmente reportagens de membros do governo em vista a cooperativas e resenhas das declarações laudatórias que proferiam nessas ocasiões.

Só que discurso e prática governamental não seguem totalmente a par, já que em 1961 é publicado um diploma (DL 43856) que sujeita as direções eleitas das cooperativas agrícolas a homologação e permite a nomeação de comissões administrativas para as cooperativas.


 

AS COOPERATIVAS E A UNICOOPE

  por João Dias Agudo

  Boletim Cooperativista nº 116/117

  Junho/Julho de 1963

 

Nas minhas andanças intercooperativas ……… procuro sempre que posso ou vem a talho de foice, chamar a atenção dos cooperadores para as relações que estes devem manter entre si na sua associação e para as que, em grau maior, devem existir entre as Cooperativas e a Unicoope que é a União de todas as filiadas.


….. o meu objectivo é cimentar os bons sentimentos de auxílio mútuo entre os sócios e criar ou desenvolver, segundo o caso, os que, não nascidos ainda ou fracos por natureza, precisam de ambiente próspero para nascerem ou de impulso para se revigorarem ou frutificarem em vistosos e saborosos pomos de Cooperação.


….. tenho por idêntico propósito o unir em elo forte aqueles muito pequeninos anéis da corrente que por si só, não poderiam resistir a certos abalos, solavancos ou crises que a vida económica apresenta, tantas vezes. Sirvo-me da imagem económica para tornar o assunto mais claro, que não deixa o facto de dar-se igualmente em qualquer dos outros aspectos, quando as dificuldades e as crises fazem pressão sobre a vida das nossas instituições. A vida moral é um desses.


Foi para obviar ou remediar os efeitos duma vida que se leva vegetando, com o risco mesmo assim, de se interceptar e apagar, que se procurou um escudo, uma muralha, contra a qual viessem bater e desfazer-se os vagalhões da má fortuna. Esse escudo, essa defesa, era a União, ou Federação das Cooperativas. À parte uma ou outra, todas elas viviam num esforço permanente de equilíbrio. E se não fora a «dedicação sem limites de tantos cooperadores bons, muitas delas teriam já soçobrado neste mar tempestuoso que foi o segundo quartel do século em que vivemos.


A União de todos faculta a possibilidade de sair do marasmo e até das dificuldades quotidianas. Compreende-se: onde há um plano de conjunto, uma ideia mãe a nortear acções isoladas que se gastam e enfraquecem por falta, tantas vezes, de coesão e de harmonia, ricas pelo contrário de dispersão e de alheamento dos fins que devem procurar todos em norte comum, há mil probabilidades contra uma de triunfar dos obstáculos que se levantam no caminho e marchar confiantes em demanda do futuro.


……….


Porque esta obra da Cooperação não é de um só indivíduo nem duma só Cooperativa. É de todos os indivíduos e de todas as cooperativas que sentem entre si o calor da ideia do auxílio mútuo e do sentimento da fraternidade entre os homens. É uma cruzada que marcha sem parar porque confia na conquista dos valores que tornam as pessoas melhores e menos atingidas pelas iniquidades do mundo. É por isso que as Uniões são benvindas sempre como instrumento de emancipação, cabendo a todos os que as constituem – aqui as cooperativas aderentes – a responsabilidade de lhes facilitarem os movimentos e de as ajudarem em tudo que seja necessário para que elas possam cumprir a sua superior missão de orientar e de fornecer aos sócios os géneros e os produtos que devam fazer delas os Armazéns Cooperativos Abastecedores por excelência. No caso português, a Cooperativa membro da Unicoope deve não só concorrer para que lhe não criar dificuldades financeiras ou outras que possam obstar ao pleno desempenho a suas funções económicas, como ainda sugerir quanto em suas forças caiba, ou em seu saber, para um possível aperfeiçoamento da sua organização e dos seus processos de trabalho. Os homens que a dirigem não são perfeitos, como nenhum outro o é. Precisam de ajuda, da boa vontade de todos e até de compreensão por parte das cooperativas nalgum ponto em que o seu trabalho seja de rendimento deficiente, o que pode não ser de sua inteira responsabilidade. Há factores estranhos que actuando contra os nossos propósitos, não lhes permitem desentranhar-se em frutos.


………….


Não esqueçamos, porém, que o Cooperativismo português será o que for a União das suas cooperativas. Os seus dirigentes dizem que ela, a Unicoope, «será o que as cooperativas quiserem». É a mesma coisa, contanto que admitamos, como cumpre, que elas quererão o seu bem.


Ora este bem só se atinge, – não nos iludamos! – considerando que nenhuma delas pode resolver, por si, os seus próprios problemas. Não. Os problemas cooperativos estão sendo hoje de todas elas, em comum…… Não há problemas de uma cooperativa só: há problemas do movimento em geral do cooperativismo e, em cada país, o problema, pelo menos do cooperativismo nacional, o que virá talvez a ser demonstrado muito brevemente pelas exigências do Mercado Comum a que o nosso país não deixará de aderir. Nessa altura, nós não deixaremos de ser solidários com a directriz que os Governos imprimirem à economia nacional; e essa solidariedade será tanto mais fácil de suportar quanto mais bem organizado estiver o nosso movimento. A Unicoope poderá ser disso a melhor garantia.

 

 
BREVES CONSIDERAÇÕES

  por João Salazar Leite ( joaoleite@cases.pt )

 

O artigo não teria sido escrito se não houvesse problemas na intercooperação vertical, na relação Cooperativas/União. Acontecem estes problemas sempre que uma estrutura cresce (o Boletim sempre deu conta das adesões à Unicoope, e nesta altura já se havia ultrapassado as 50 cooperativas de Norte a Sul de Portugal), o que é bom para ganhar dimensão comercial e poder reivindicativo junto dos fornecedores, mas é mau porque se perde a união entre os fundadores, e as cooperativas não são suficientemente ‘ricas’ para se dotarem de estruturas capazes em termos técnicos e humanos para ultrapassarem os obstáculos e a inovação permanente que lhes é exigida.

A União acabaria, porém, por sobreviver mais de uma década a este sinal de problemas, aliás não chegou a ver o Mercado comum que o autor pioneiramente divisava.

 


O COOPERATIVISMO IDEAL

  por Prof. J. Dias Agudo

  Boletim Cooperativista nº 121

  Novembro de 1963

 

Embora os nossos ideais sejam sempre ou quase sempre irrealizáveis, sinal de que pomos nossos pensamentos em altura a que não chegam as nossas possibilidades de realização ou nos mostramos demasiadamente ambiciosos no programa de vida que traçamos na idade em que tudo nos parece fácil de conseguir, supomos não haver qualquer inconveniente em apresentar aos nosso leitores alguns pontos essenciais da exposição que no Congresso anual do cooperativismo Canadiano fez este ano sobre a matéria deste título o senhor Emile Charron.


Apresentou este cooperativista dez características do cooperador perfeito segundo as necessidades do nosso tempo. São elas:

  1. O cooperador perfeito é um homem livre e aspira a uma liberdade sempre maior isto é, aspira a influenciar no sentido de seus interesses verdadeiros as condições económicas e sociais que o cercam.

  2. É um homem responsável que dá toda a medida da sua colaboração (à cooperativa) a que pertence, a

  3. O cooperador perfeito é um homem progressivo que acredita no êxito da iniciativa e na necessidade do esforço pessoal. Acima de tudo, repudia tudo o que conduz à preguiça e ao «deixar andar».

  4. É também um colaborador activo e eficaz. Crê nos méritos do auxílio mútuo e na eficácia da acção em grupo.

  5. O cooperador perfeito é um realista cheio de bom senso que desenvolveu em si um autêntico sentido do social, isto é, uma clara intuição do bem comum.

  6. É um homem que se preocupa em aprender porque deseja para si e para a instituição a que pertence uma perfeição sempre crescente, como igualmente procura para os seus concidadãos um progresso económico e humano sempre mais alto.

  7. O cooperador perfeito é um altruísta. Não tem da vida económica uma concepção egoísta; procura para os problemas que aqui nascem e se desenvolvem uma solução humana, quer dizer, que não seja só sua mas que sirva e esteja enquadrada no contexto social em que viveu.

  8. É um democrata o cooperador perfeito, o que equivale a dizer que acredita na descentralização do «Controle». Não admite que pequenos grupos de homens possam adquirir a nefasta situação de poder dizer e impor à população a medida e a forma em que serão satisfeitas as suas necessidades económicas.

  9. É um homem que aceita sem qualquer reserva o primado do humano. Insurge-se por isso, contra o facto de se considerar o dinheiro ou qualquer outro bem material como legítimo senhor da pessoa humana. Para ele, o capital deve servir o homem e não o homem ser servo do capital.

  10. O cooperador perfeito é, enfim, um homem no mais largo sentido desta palavra. Tem um grande respeito pela pessoa humana e pelos valores que ela representa, e bem assim confiança nos seus concidadãos que julga capazes, por meio do estudo e da aplicação, de encontrar com ele melhores soluções para os programas que a todos são comuns.


……………………….


A preocupação de aprender
é qualidade que pode, na verdade, incluir-se no quadro dum cooperador perfeito. Quem não avança recua – diz um filósofo, e em cooperação o conceito é igualmente verdadeiro. Há sempre problemas novos que requerem informação e mentalidade própria e capaz de solução adequada. Quem as não possuir não poderá contribuir para o êxito da sua cooperativa e do movimento em geral.


Esta preocupação de aprender deve possuí-la o cooperador logo de início para se pôr a par do funcionamento da organização a que pertence. Precisa saber como agem os corpos gerentes e quais as tarefas que a cada um deles incumbe; em que âmbito actuam eles e que dificuldade representa o seu desempenho. Tudo isto é bom para poder ser justo na apreciação do trabalho que fizeram; mais: para poder ser generoso perante certas pequenas faltas que se cometem e de que ninguém está livre porque ninguém é perfeito.


Esta preocupação de aprender, com a sua natural consequência da conquista de saber, levá-lo-á, assim a tornar-se idóneo no exercício das mesmas funções quando um dia for chamado a exercê-las na sua associação. Porque é de justiça que o encargo de dirigir não recaia só sobre uns tantos sacrificados, tantas vezes, durante anos e anos e sem retribuição que não seja a satisfação moral do dever cumprido. Cumpre que outros homens tomem a posição de conduzir a bom porto a nau cooperativa que a todos acolhe e a todos ampara igualmente.


Outro aspecto da preocupação de aprender até certo ponto englobada na sétima característica de Charron, é o poder o cooperador, estudando e trabalhando no campo das actividades intelectuais, criar a mentalidade que o leve em todos os seus actos associativos a não considerar a sua cooperativa com uma vida isolada das outras cooperativas; a supor que ela é um compartimento estanque, fechado, do movimento cooperativista nacional doutro ou de âmbito mais largo ainda. Esta consideração estreita sobre os fins de uma cooperativa briga com a própria essência dela, que é a de prestar sempre e em toda a parte a ajuda mútua, primeiramente dentro dela, aos sócios, e de seguida às outras cooperativas, empenhadas igualmente na mesma obra de melhorar as condições de vida de todos e de concorrer para o aperfeiçoamento da pessoa humana. Esta preocupação de aprender, mesmo que se não possua de início, é perfeitamente susceptível de conquistar-se, e podemos bem dizer que só com ela o sócio pode chegar a corresponder ao duplo objectivo da sua cooperativa. Sem ela, Também é verdade que ele não passará de uma pessoa que só conta com os benefícios a receber pois não está de modo algum apetrechado para dar e multiplicar um esforço que ainda que se não peça, deve estar sempre pronto a oferecer-se.


Este é, aliás, o espírito do cooperativismo em toda a parte, como o foi sempre através dos tempos.

 

 
BREVES CONSIDERAÇÕES

  por João Salazar Leite ( joaoleite@cases.pt )

 

Regresso a um tema que denota uma preocupação constante dos autores do Boletim, o da formação, melhor da autoformação e da ‘pressão’ sobre as direções cooperativas para que desenvolvam atividades formativas e educativas.

Por esta altura, o Boletim era editado já em 12 páginas, sendo enormes as referências a artigos publicados noutras paragens e as longas, por vezes em números sucessivos, passagens de livros sobre temática cooperativa e conferências proferidas por diversos teóricos e dirigentes cooperativos. De Sérgio só referências a homenagens prestadas por esta ou aquela cooperativa, já que um ou outro artigo que traz o seu nome apenas é recuperação de textos de uma década atrás.


O COOPERATIVISMO, ANTECIPAÇÃO DA ECONOMIA MODERNA

  por Emídio Santana do Ateneu Cooperativo

  Boletim Cooperativista nº 123

  Janeiro de 1964

 

Um dos dogmas da economia ainda prevalecentes é de que a prosperidade das nações reside no poder das suas empresas, das suas indústrias e dos negócios, no volume das suas exportações, isto é, no valor absoluto do lucro.


A primeira correcção económica foi a organização reivindicadora dos trabalhadores, conquistando melhores condições económicas e sociais do assalariado. A competição entre preços e salários tornou-se a dura luta do consumidor contra os interesses privados dos detentores da produção.


O cooperativismo, associando os consumidores para a prestação de serviços e a distribuição de artigos de consumo por processos económicos, suprimindo lucros e intermediário, instituiu um princípio novo na economia: a produção, sujeita ao lucro, era assim posta ao serviço do consumidor.


Cerca de um século de cooperação, com o seu extraordinário desenvolvimento e comprovado êxito, antecipou a própria evolução que a economia está sofrendo.

Os efeitos desastrosos do capitalismo de competição que nos levou a duas guerras mundiais, gerando a vaga dos nacionalismos económicos que fizeram de cada país uma praça sitiada, usando de complicados estratagemas para as sortidas das exportações, o rígido controle das importações e obrigando os povos a suportar os pesados encargos a que a politica dos preços obrigava, abriu-nos o caminho à economia planificada.


Uma planificação económica, para além dum duvidoso dirigismo, não poderia deixar de assentar em dados do consumo, a melhor utilização das fontes de energia e de matérias primas, e, finalmente, a produção condicionada a esses factores. Um facto novo, primacial, aparecia na planificação: o homem-consumidor. Tornava-se imperioso intensificar o consumo, e para isso melhorar todos os meios de produção de modo a que as mercadorias se tornassem o mais acessíveis possível, portanto, a preços justos e baixos. A tendência do custo para zero.


Pela primeira vez na história da economia mundial o problema da fome, dos povos subdesenvolvidos, e da sua capacidade de consumo se tornavam o fulcro das factos que importam resolver com vista à ordenação económica e social. A necessidade vital da incrementação económica obriga mesmo a sujeitar os interesses privados, a alterar obsoletos preceitos jurídicos, na directa utilização dos recursos e dos meios de os fazer florescer. O capital, até então utilizado pelos seus próprios detentores só em aplicações imediatas de lucro, e a render elevado juro é hoje mobilizado, nos países progressivos, pela Administração e pela via de impostos progressivos de rendimento, em aplicações a largo prazo nas obras de desenvolvimento social e económico.


A relevância dos problemas do consumo na economia moderna em evolução é um facto, que vem comprovar a lógica e o imperativo dos postulados do cooperativismo, e de que a própria economia em socialização, não pode dispensá-lo como instrumento da sua efectivação.


Os velhos slogans dos programas de salvação económica vão desaparecendo, e os temas e a linguagem dos economistas modifica-se. Os valores estatísticos procurados são outros.


Investimentos, produtividade, as capitações de consumo e rendimento, são valores que têm hoje uma expressão nova. O próprio lucro, o motor da economia capitalista, sofre profundas limitações.


Na medida em que os extraordinários progressos técnicos da produção, as técnicas da produtividade e a facilidade dos investimentos, aumentam os volumes de mercadoria produzida, um facto se daria, o aumento do rendimento, a maior apropriação do lucro. Nos países de economia monopolista ou condicionada, assim sucede e ocasiona as grandes desproporções ao usufruto do rendimento nacional.


Nos países de climatização social da economia, isto é, em evolução, procede-se a uma política de rendimentos que contém os rendimentos monetários no limite da produtividade. Quer dizer, procura-se os menores custos de produção e o menor encargo de lucro. Isto aproxima-se já dos postulados cooperativos: produzir a mais baixo custo de produção, que, no seu sistema de propriedade colectiva, o lucro é indispensável em benefício do consumidor-proprietário que é o cooperador.

A economia, na constante deste surto de progresso, e numa fase de abundância, chegará mesmo a produzir para consumo grátis determinados produtos fundamentais à vida humana, como o pão por exemplo.


Concluímos que o cooperativismo, com o seu extraordinário desenvolvimento, e com as comprovadas possibilidades, é já a estrutura da economia humana em gestação colocando ao dispor do consumidor associado o produto ao mais baixo preço de custo, estabelece uma inversa do lucro: consumir mais com menor custo.


Lendo a mensagem da Aliança Cooperativa Internacional consagrada ao 41º Dia Internacional da Cooperação, que atenta exactamente nos problemas que aqui deixamos abordados, fiquei pensando, até que ponto o nosso movimento cooperativo – refiro-me aos cooperadores – se compenetrou destas realidade para, em vez de aguardar complacentemente o dia do Messias, ajuizar do valor positivo do seu movimento cooperativo – cooperativas em actividade distribuidora – para imprimir-lhe um novo impulso de modo a converter o seu potencial orgânico quase estático em potencial dinamizador da nossa economia.


A cobertura do país é ainda débil na sua extensão, mas representa já um núcleo tão positivo que, se vencer a sua rotina, abrindo à UNICOOPE novas possibilidades, breve poderia ser um novo sector na economia nacional, projectando-a na senda do mundo em transformação.


Um novo espírito se forma, compreendendo que o princípio de auxílio mútuo que informa a cooperação não se encerra simplesmente dentro dos limites habitacionais ou territoriais da nossa Cooperativa. Esse princípio de auxílio mútuo é também extensivo a todo o movimento. Se já temos cooperação entre os membros da mesma Cooperativa, importa agora aplicá-lo em alto grau entre Cooperativas. E uma vez iniciado, o movimento cooperativo português poderá ser o mais positivo meio segurador da nossa economia complicada e contraditória.

 

 
BREVES CONSIDERAÇÕES

  por João Salazar Leite ( joaoleite@cases.pt )

 

O artigo foi motivado pela mensagem da ACI que versava o apoio ao desenvolvimento, intitulando-se ‘Por uma vida melhor’. Santana, porém, aproveita-a para expor as suas ideias sobre a evolução da economia e sociedade à época e acaba com um panegírico sobre a intercooperação e a possibilidade da criação de um setor na economia. Concordando-se ou não com o que preconizava, que o movimento quebrasse a modorra e fosse um agente de transformação social, e mesmo sabendo que a evolução não foi no sentido que Santana apontava, não deixa de ser capital referir que o Boletim publicava versões sobre a evolução da sociedade opostas à do regime vigente, aparentemente sem qualquer tipo de censura das autoridades.


UM CONGRESSO COOPERATIVO PARA 1965
CARTA ABERTA AOS COOPERATIVISTAS PORTUGUESES

  por Gomercindo Carvalho da Coop. Piedense

  Boletim Cooperativista nº 125

  Março de 1964

 

Sei que na mente de alguns válidos cooperativistas portugueses germina a ideia da realização de um Congresso Cooperativista para 1965.


Desde já desejo expressar aqui a minha entusiástica adesão a tão necessária quanto urgente iniciativa, pois creio-a capaz de dar um valioso contributo à luta que alguns travam para vencer o marasmo em que, de certo modo, o nosso movimento se mantém.


Raros entre nós, cooperadores, têm uma visão válida acerca do movimento em que estão integrados, e isso, quanto a mim, é uma das razões fundamentais que prejudicam o seu progresso.


O conhecimento de que a acção dos homens é tanto mais válida quanto mais válidas forem as suas ideias, parece de fácil assimilação, mas a prática do dia a dia mostra-nos que assim não é. A maioria dos cooperadores vivem alheados das iniciativas culturais, único processo de fomentar o desenvolvimento das ideias que, esclarecidas, levariam a uma acção igualmente esclarecida.


Porém, o mais grave ainda, é a acção perniciosa de certos dirigentes cooperativos que por razões várias, entravam a realização de tais iniciativas, contribuindo assim para que se acentue mais o marasmo das «massas cooperadoras», e consequentemente comprometam de modo bem grave o progresso do nosso Movimento. Alegam esses tais, desejando justificar a atitude negativa face à preparação cultural dos associados, que o Movimento Cooperativo é somente de ordem económico-social, e embora mostrando não desprezar por completo o problema cultural, entendem que ele somente se poderá pôr depois da resolução dos problemas económico-sociais.


Ora isto é, quanto a mim, puro desconhecimento das realidades ………


Se atentarmos no evoluir histórico veremos que sempre o desenvolvimento do sector económico esteve intrinsecamente ligado ao desenvolvimento das ideias, verificando-se reciprocidade entre ambos os sectores ………..


O Movimento Cooperativo é, quer-me parecer, um movimento que sintetiza em si tudo aquilo que de nobre, de justo a humanidade sempre ansiou. ……..


…. As dificuldades a vencer em todos os campos são enormes, e quanto a mim o campo onde essas dificuldades se agigantam é o nosso próprio campo, pois que sei ser sempre difícil o fazermos um exame de consciência e admitir os nosso erros, assim como é difícil vencermos esta doce inércia de alforrecas por acharmos ser mais fácil (e mais útil) deixarmo-nos conduzir ao sabor da corrente do que movimentarmo-nos por um esforço enérgico próprio.


….. O «alforrequismo» terá de ser substituído por uma ideologia que dê ao Cooperativismo as bases necessárias a uma acção total, isto é, uma acção que não descure nada que importe à emancipação total do homem, emancipação essa de ordem material como espiritual.


……….


Cremos que o Cooperativismo só atingirá este nível – o nível de movimento total – quando adentro das nossas cooperativas nos entregarmos a uma faina de educação da nossa juventude em moldes cem por cento cooperativistas. Contudo, esta faina implica uma clara consciência da natureza do homem e da sua finalidade, a fim de sabermos qual o rumo a imprimir à nossa acção cooperativista.


………


Para que desempenhe o papel que lhe cabe, o Cooperativismo deve constituir-se numa filosofia actuante, e isso implica a necessidade de agregar a si um conjunto de ideias (políticas, éticas, sociológicas, epistemológicas, etc.) que estejam de acordo com os princípios nele existentes.


Onde buscar essas ideias? Creio que António Sérgio poderá constituir a fonte principal, pois que ao longo da sua obra as possui abundantes e variadas. Agregar ao Cooperativismo a gnoseologia de A. Sérgio é dar-lhe uma base que permita volver-se num edifício e conhecimento, edifício esse capaz de abrigar as ideias necessárias a uma acção concretizadora de todas as nossas necessidades de cooperativistas.


Portanto, creio necessário desde já começarmos por dar uma nova dimensão ao nosso Movimento, e que esse ideal de um Cooperativismo erguido ao nível de sistema total encontre abrigo no espírito dos cooperadores que organizarem o Congresso e mesmo em todos que nele participarem.

Que esse Congresso seja para o nosso Movimento uma data histórica e que nele se planifiquem as nossas energias desperdiçadas de modo caótico numa perniciosa acção quase individualista.


………..


Que o Congresso seja a aurora para todos aqueles que estão ansiosos de se devotarem de corpo e alma a uma acção emancipadora do homem, mas que até agora viram tolhidos todos os seus esforços pela ignorância de muitos e pela má vontade de outros.


Cooperativistas amigos! …. Comecemos desde já a pensar em constituir uma Comissão organizadora do Congresso …. E que o «Boletim Cooperativista» seja o veículo de comunicação entre todos nós ……..


Deve-se desde já pensar em dar, no nosso Congresso, um lugar de importância à nossa juventude em especial a universitária ……..


É tempo de abrirmos as nossas portas e convidarmos todos a entrar e a verem que a nossa casa é confortável, que se respira nela um ar não viciado; que há harmonia, paz e entusiasmo.


Porém, primeiro, temos de arrumar a casa.

 

 
BREVES CONSIDERAÇÕES

  por João Salazar Leite ( joaoleite@cases.pt )

 

O Congresso não viria a ter lugar em 1965, mas vindo o apelo de uma das maiores cooperativas de consumo existentes, pode deduzir-se que foi seriamente equacionado e dada luz verde pelas ‘elites pensantes’.

Os desafios que hoje se colocam às cooperativas, quer em função da globalização, quer da adequação da sua estruturação interna e vertical, quer da legislação cooperativa que se lhes aplica, permitem que idêntico apelo à realização de um Congresso seja renovado.

Estando nós em pleno Ano Internacional das Cooperativas, o apelo ganha ainda mais força, mas a palavra não tem de ser assumida pelas ‘elites pensantes’ de hoje, antes tem de sair da voz dos dirigentes cooperativos de base e das suas estruturas organizativas verticais. Este comentador crê ser já tempo de o fazer, mas ……


VERDADES AMARGAS

  por Eugénio Mota

  Boletim Cooperativista nº 127

  Maio de 1964

 

Ao historiar a visita de J.W.Ames ao nosso país …. A mais valiosa contribuição que este cooperador sueco trouxe até nós: uma série de verdades amargas que não temos tido coragem de proclamar.


Sejamos sinceros; quem leia tantos dos números do nosso «Boletim Cooperativista» julgará que tudo corre entre nós no melhor dos mundos, no melhor da concórdia, no mais sólido dos progressos.


Com receio de despertar melindres, de ferir susceptibilidades não temos tido a coragem de chamar as coisas pelos seus nomes, e de pôr as pessoas perante a plena responsabilidade dos seus actos.


Condescendemos, condescendemos, condescendemos, em todas as manifestações de individualismo, de pessoalismo, de mero capricho ou de inspiração momentânea de dirigentes que não perderam 5 minutos a estudar os problemas ou a compreender sequer o que é o Movimento Cooperativo e onde reside a defesa dos seus interesses …………..


Mas se quisermos construir um Movimento Cooperativo digno desse nome, então depararemos com diversos pontos fracos, que (Ames) sintetizou como segue:

  1. Absoluta falta de concentração – não há qualquer actividade unificada, os custos administrativos e outros duplicam-se e repetem-se constantemente, não há qualquer normalização ou centralização de métodos de distribuição, armazenagem, contabilidade, etc.; não há uma única cooperativa que tenha filiais. Torna-se assim impossível a adopção das técnicas modernas, as únicas com viabilidade de sobrevivência;

  2. Os investimentos têm sido muito mal dirigidos, havendo um excesso enorme de imobilização em prédios, terrenos, obras, e nada ou quase nada para expansão do movimento ……;

  3. Os locais são em geral mal situados e mal utilizados com falta de espaço nuns lados e desperdício nos outros;

  4. Falta de informação e propaganda junto dos associados……..;

  5. Falta de formação do pessoal e dos dirigentes, tanto profissional e técnica como cooperativista………;

  6. Distribuição de retornos elevados, que criam nos associados, por mau hábito, a mentalidade individualista de retorno máximo, sem curar de fortalecer as bases e o futuro do Movimento Cooperativo através das necessárias reservas;

  7. Deficiente criação de capitais, não só pela circunstância anterior, como também por falta de capital individual formado sobre parte do retorno, e falta de recolha das poupanças dos sócios;

  8. Falta de especialização – Nem os dirigentes nem o pessoal, quer director, quer executante, está suficientemente especializado nas muitas tarefas que urge planificar, e que só são susceptíveis de rendimento satisfatório na concentração e unificação das actividades …….;

  9. Ausência de um Plano de Desenvolvimento de 2 ou 3 anos, sem o qual se não poderá caminhar com coordenação e segurança. Hoje em dia nenhuma actividade económica se pode conceber sem hábitos de planificação e previsão.


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BREVES CONSIDERAÇÕES

  por João Salazar Leite ( joaoleite@cases.pt )

 

O Plano Ames de desenvolvimento cooperativo nacional, como viria a ser conhecido o plano que foi esquisado pelo Presidente da KF sueca, viria a marcar o resto dos anos 60 e inícios de 70 do movimento cooperativo de consumo nacional. Os Boletins que se seguem relatam as visitas de técnicos suecos que vieram ajudar a concretizar questões específicas ao Plano ligadas. Mesmo depois de Abril de 1974 o cooperativismo sueco continuou a acompanhar o português, sendo a assistência sueca mesmo fundamental para o equipamento do Inscoop e as primeiras ações de formação de que puderam beneficiar os seus funcionários.

O Plano foi acompanhado por uma Comissão dentro da Unicoope, que fez aprovar um programa de ação para 1965, de que não constava já a realização de qualquer Congresso Cooperativo.


        Textos 19 a 27

          Textos 37 a 45

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