Boletim Cooperativista comentado

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O ESPÍRITO COOPERATIVO E A PRÁTICA DO RETORNO DIFERIDO

  por António Sérgio

  Boletim Cooperativista nº 16

  Janeiro de 1955

 

 

Não se deve entrar para uma cooperativa unicamente porque se deseja ter os géneros mais baratos, de boa qualidade, sem fraude, e com o peso bem medido, mas sobretudo porque se tem espírito cooperativo, quer dizer, porque se vê no cooperativismo o instrumento por excelência da reforma social, da instauração da justiça nas relações económicas.

Ora o verdadeiro espírito cooperativista leva à prática do retorno diferido, condição essencial para o desenvolvimento do cooperativismo.

Para realizarem completamente a sua missão reformadora, precisam as cooperativas de ser poderosas; e, para serem poderosas, cumpre-lhes dispor de capitais importantes.

Dispondo de capitais importantes, poderão elas sustentar a sua federação, criar o seu armazém grossista, fundar ou comprar oficinas industriais, adquirir granjas, instituir o seu Banco cooperativo, o seu corpo de fiscais, etc.

Ora as cooperativas poderão facilmente ter grandes capitais ao seu dispor se recorrerem à prática do retorno diferido, isto é, aquele cujo pagamento se transfere para um futuro longínquo. Em vez de pagarem no fim do ano, aos sócios, a totalidade dos seus retornos, o retorno fica exarado em sua conta, podendo a cooperativa empregar esses capitais no desenvolvimento da obra do cooperativismo, até colocar na mão dos consumidores o governo económico da Sociedade, da Nação.

Lembremos um exemplo.

Em Junho de 1949, a ’Cooperativa União de Amiens’, uma das mais poderosas cooperativas da França, adoptou a resolução seguinte:

“Será criada em nome de cada associado uma conta individual de retorno diferido, sem juros, alimentada por um desconto sobre os retornos distribuídos a cada um, cujo montante será, no fim de cada ano, fixado em Assembleia Geral.

O reembolso realizar-se-á nos termos

  1. Demissão do associado depois de cinco anos;

  2. Falecimento do associado;

  3. Mudança do associado para localidade não servida pela cooperativa;

  4. Liquidação da cooperativa.

Quando o associado completar os 60 anos de idade deixará de ser obrigatório o desconto.”

À conta do retorno diferido, aberta em nome de cada associado, poderia marcar-se um limite (digamos de mil escudos). Atingido esse limite, o sócio passaria a receber cada ano a totalidade do seu retorno.

Creio que as nossa cooperativas de consumo deveriam pedir ao Governo autorização de vender ao público, sob condição de os lucros provenientes de tais vendas não irem reforçar os retornos aos sócios, mas se dedicarem a um Fundo de Desenvolvimento da Obra do Cooperativismo, auxiliando assim a função própria dos retornos diferidos.

 

 
BREVES CONSIDERAÇÕES

  por João Salazar Leite ( joaoleite@cases.pt )

 

Interessante artigo por duas razões: por um lado, Sérgio mantém-se fiel a Rochdale e à sua ‘First Law’, ao abrir à cooperativa de consumo outros horizontes que não apenas o da venda de produtos de consumo em loja própria; e constata-se que ainda pensa na Nação cooperativa, que ainda defende uma economia planificada, não pelo Estado, mas pelas cooperativas de consumo (volta a este tema no balanço dos 4 anos do Boletim, no nº seguinte).

Por outro lado aborda uma problemática, ou a problemática, que sempre se apresentou às cooperativas de consumo, uma espécie de caminho na corda bamba, uma opção entre distribuir os excedentes ou usá-los para capitalização cooperativa, ainda que temporária.

No fim de contas trata-se de solucionar uma questão simples, a de atrair para o cooperativismo os indivíduos, consumidores, da sua área de influência, demonstrando as vantagens que têm em aderir às cooperativas por contraponto ao comércio privado.

Diferir a distribuição do retorno pode reduzir em certa medida essas vantagens. Tratando-se de consumidores, na generalidade, de classes desfavorecidas, o que se lhes pede é uma aposta no sucesso da cooperativa assente numa ‘fé’, pois se a cooperativa encerrar dificilmente haverá recuperação dos créditos para com ela.

Acresce que o dinheiro não recuperado ao fim do ano irá servir para fins de que o indivíduo cooperador está muito distante, a federação, o armazém de grosso, o Banco, pois já não os pode controlar diretamente através da participação ativa na sua cooperativa.

Por isso, cooperativas de consumo há que optaram por continuar a distribuir um retorno, não já no final do ano, mas no ato do pagamento das compras, compras pagas integralmente pelo não membro, e com desconto de uma percentagem pelo membro. Sérgio estava longe de sonhar com as tecnologias que atualmente permitem estas e outras soluções, mas cada vez mais as cooperativas de consumo ditas abertas ao público, sobre que Sérgio ansiava, e que devem contabilisticamente separar, por razões fiscais, as vendas a membros e não membros, se têm de socorrer de formas de fazer aumentar o seu corpo de filiados pelo recurso a soluções engenhosas e apelativas.

Finalmente uma palavra para a preocupação social evidenciada pelo estabelecimento proposto de um limite de idade para o retorno não ser capitalizado, os 60 anos. Sérgio e discípulos, vê-se, estavam a par das obras escritas sobre a história pré Rochdale, já que o próprio Robert Owen defendia a aplicação de parte do retorno anual em Obras de Bem-estar.

 

 


OS NATIVOS NA ECONOMIA AFRICANA

  pelo Prof. Dr. Marcelo Caetano

  Boletim Cooperativista nº 18

  Março de 1955

 

 

Depois de uma análise sobre a situação dos nativos na África portuguesa, em que foram considerados aspectos demográficos gerais, o nativo como produtor e consumidor, a comercialização da produção e os preços da propriedade nativa, o Autor conclui:

“ A fórmula cooperativa parece, efectivamente, na opinião de quantos se têm debruçado sobre os problemas da reorganização económica e social das populações indígenas em ordem a educá-las para a civilização, a mais indicada quando se pretende uma fórmula transitória entre a economia comunitária das tribos divagantes e a economia individualista de aldeias sedentárias.

A cooperativa aldeã de fins múltiplos garante a solidariedade colectiva a que os indígenas estão tradicionalmente habituados e habilita a colectividade a intervir como tal na vida jurídica e económica em contacto com os meios civilizados. Mas, por outro lado, os indivíduos ganham nela personalidade, recebem as suas terras que irão evoluindo para a propriedade privada, abrem as suas contas, recolhem os seus lucros, formam os seus patrimónios particulares já que a cooperativa é uma sociedade de pessoas.

Permite ainda a cooperativa uma tutela educativa que pouco a pouco vá iniciando os nativos na economia do mundo civilizado ensinando melhores métodos de produzir, facilitando o emprego das disponibilidades na compra de bens úteis e libertando os indígenas do perigo da exploração pelo comércio.

As experiências da organização de cooperativas indígenas, quando bem orientadas, têm sido por toda a África coroadas de sucesso. Contrariadas, como é natural, por alguns comerciantes pouco esclarecidos que julgam ver nelas inimigas da sua prosperidade, quando a prazo não longo a elevação de nível dos nativos se traduzirá necessariamente em maior procura nos mercados e em benefício do comércio, elas merecem porém, o maior carinho e amparo da parte dos governantes.

É pelas cooperativas que os indígenas poderão vir a ser persuadidos a uma exploração agrária mais racional com vantagens para eles e para a defesa da terra africana. E serão elas que lhes permitirão fruir utilmente a valorização do seu esforço e o melhoramento dos produtos do seu trabalho.

No dia em que os produtores nativos estiverem organizados em cooperativas inteligentemente orientadas, já poderá, sem receio, pagar-se a produção indígena pelos preços que os mercados permitirem mesmo quando esses preços sejam altos.

O indígena tem de ser defendido contra a ganância alheia, sobretudo e por ora, contra si próprio.”

 

 
BREVES CONSIDERAÇÕES

  por João Salazar Leite ( joaoleite@cases.pt

 

De um número do Boletim que poderia ter originado vários artigos de reflexão, optámos por este, pela surpresa que nos causou quem o escreveu, e estar o Autor a par das potencialidades e realidade cooperativa, africana pelo menos.

Quem assim escreve, como é que é capaz de década e meia mais tarde, fazer publicar no seu consulado o DL 520/71, que cerceou a atividade das cooperativas culturais? Fica a pergunta sem resposta.

Neste artigo, Marcelo Caetano reconhece o papel da educação cooperativa para o desenvolvimento do homem, mostra que conhece bem o afrontamento entre cooperativas e comerciantes privados, criticando o modo como estes as vêem, e sobretudo parece defender os ‘fins múltiplos’ das cooperativas aldeãs, a polivalência incipiente que após o 25 de Abril demorou anos a reaparecer na nossa lei.

Está também perfeitamente consciente de que é necessária uma classe média em África e que o desenvolvimento só será plenamente atingido quando ela existir, e vier a preencher o hiato entre a classe dirigente, e o seu círculo próximo, e a grande massa popular pobre e deixada quase à sua sorte.

Claro, tem o artigo uma visão colonizadora que está ultrapassada, uma visão de um desenvolvimento bem controlado, ele fala em ‘bem orientado’, mas quem lida com África sabe que o cooperativismo tem nela futuro, mais é um modelo de organização que está próximo da vivência coletiva africana, e Marcelo já o diz.

Outros importantes artigos são publicados neste nº 18 do Boletim.

Um primeiro, de Manuel Sertório, intitulado Cooperativismo, em que na esteira de Sérgio vem defender que o ‘cerne do cooperativismo’ é a transformação da estrutura económica existente.

Um segundo, de Carlos Alves de Moura, da Cooperativa Popular de Loriga, com o título ‘A Classe Operária ignora o Cooperativismo’. Nele escreve a certa altura: “Alimento ainda a ideia que torno pública nestas colunas, que era criar-se um dia dedicado ao movimento Cooperativista no País estreitando-se mais os laços entre os Cooperativistas e a sua Cooperativa ….. se torne, quanto antes, um movimento entusiasticamente partilhado pelos Operários e verdadeiramente animado de uma fraternidade inigualável.

Será que para lá do Dia internacional das cooperativas, habitualmente celebrado no 1º sábado de Julho, 2012 vai assistir à instituição de um Dia aberto cooperativo, dia em que todas as cooperativas voluntariamente se dão a conhecer ao meio envolvente?

Um último, sem autor, intitulado ‘Os Católicos e o Programa Cooperatista’ (sic), que fala no interesse pelo cooperativismo dos trabalhadores cristãos, na esteira dos cristãos-sociais fundadores de Rochdale, da criação por elementos ligados à Igreja das cooperativas de crédito e agrícolas na Alemanha e na Itália, no facto de a Igreja Católica não poder ‘de modo algum deixar de ficar impressionada com o princípio básico da programa cooperatista: a abolição do lucro’.

 

 


PARA UM ESPÍRITO COOPERATIVO

  por Desidério Costa da Coop Caixa Económica Operária

  Boletim Cooperativista nº 20

  Maio de 1955

 

É frequente ouvir entre os militantes cooperativos o desabafo de que falta na nossa gente espírito de cooperação……


Efectivamente quando, fora do âmbito das massas associadas das cooperativas, abordamos alguém sobre este movimento, deparamos com indiferença ou desconhecimento dos princípios, do mérito, das vantagens sociais do cooperativismo.


Se a pessoa abordada é operário, responde com um encolher de ombros, incrédulo de que seja viável entre nós qualquer movimento legal susceptível de lhe proporcionar bem estar ou simples benefícios económicos ou culturais. Na enraizada apatia que o rodeia, parece-lhe que qualquer movimento vantajoso, para si e para os seus, só poderá surgir um dia provindo de origens transcendentes que não o mero concerto da sua vontade e da dos seus companheiros.


Se a pessoa pertence a camadas burocráticas ou com alguma formação intelectual, finge, por vezes, ter da ideia cooperativista algum conhecimento, acha-a teoricamente interessante e esconde a mesma apatia com a afirmação enfática de que o movimento é interessante mas não viável entre nós por no nosso meio não existir ambiente cooperativista. A outros ainda, mesmo saídos de cursos superiores nunca lhes falaram de tal movimento.


Uns e outros assim se ficam na doce modorra do conchego familiar ou no ameno cavaqueio da taberna ou do café, apenas perturbados pelos entusiasmos desportivos ou por esporádicos estrebuchões idealistas prenunciadores de que as suas esperanças de melhoria social virão a ser satisfeitas pela aparição de vontades estranhas que magicamente tudo resolverão. E cada um por si e para si, dominado por arreigado pessoalismo inconsciente e rotineiro, continuará lutando contra as próprias dificuldades que nunca chegam a ser vencidas.


Mas – perguntamos – haverá, especificamente, uma falta de espírito cooperativo? Não será o povo português capaz de compreender, realizar e seguir a ideia cooperativista? Seremos assim tão diferentes de outros povos mais evoluídos?


Não. O que há é uma falta de educação associativa. O que não existe é uma escola colectivista. Nasce-se e cresce-se em grupos familiares, mutuamente alheios, dos quais se destacam elementos para a luta pela vida, indiferentes aos outros grupos ou aos elementos que a eles pertençam, não se apercebendo que lutam pelos mesmos fins, vitimas de causas comuns. E contudo teima-se em exaltar o alheamento familiar.


Aparte algumas excepções de carácter mutualista, a nossa gente não tem o hábito de resolver colectivamente os seus problemas, porque não desfrutando de escola colectivista, desconhece que eles são mesmo colectivos. Confunde organizações livres e voluntárias com as de carácter obrigatório, cujo mérito, aliás, não sente ou não abrange por viver completamente alheada da sua administração.


Ora o espírito cooperativo não podia nascer espontaneamente neste ambiente como, de resto, não foi espontâneo noutros. Terá de ser criado como o foi naqueles. Algo no entanto já existe: E é prova disso o crescente entusiasmo que vimos notando pelas cooperativas. Porém, o que está feito é muito pouco, cumpre aos cooperativistas cultivar o ambiente.


É necessário convencer a toda a gente, designadamente aos trabalhadores, por meio de propaganda bem orientada, que, se através dos sindicatos valorizam o seu trabalho, mediante o estabelecimento de contratos colectivos, é através das cooperativas que poderão valorizar o poder aquisitivo dos seus salários. É preciso fazer compreender que as cooperativas resultam da acção conjugada das economias individuais para a constituição dum capital colectivo e dos esforços pessoais de cada um no sentido da construção dum todo; que os estabelecimentos das cooperativas são também seus, quando associados, e neles podem adquirir os géneros necessários à sua subsistência em condições mais acessíveis e confiantes e de cuja aquisição usufruem, sob a forma de bónus, os lucros inconscientemente desprezados nas compras feitas a estranhos; que as cooperativas são sociedades livres abertas a toda a gente e nelas todos têm iguais direitos e deveres; e, finalmente, que o cooperativismo poderá vir a facultar-lhes mais amplos meios de progresso e de bem estar social.


Mas não bastará fazer propaganda. Esta tornar-se-á improfícua se não for acompanhada de actividade realizadora e perseverante. Os cooperativistas, sobretudo os administradores das cooperativas, não deverão limitar-se ao mero papel de deixar andar. Devem actuar sempre com sentido progressivo, promover novas iniciativas susceptíveis de interessar cada vez mais os associados e alargar o âmbito das sociedades.


Há que desarreigar idealismos pueris e encarar objectivamente os problemas que dia-a-dia se apresentam na direcção das cooperativas; rever estatutos, se não correspondem às realidades presentes; observar se os métodos administrativos usuais são os mais apropriados; simplificar o trabalho dos directores a fim de obviar à falta de dirigentes; estudar a conveniência de compensar o trabalho das pessoas que se dedicam às cooperativas; encarregar técnicos competentes de rever e organizar as escriturações; promover desassombradamente a cooperação das cooperativas para engrandecimento do movimento; numa palavra, colocar as unidades cooperativas em posição de confirmarem, à evidência, a objectividade da ideia cooperativista. Então teremos espírito cooperativo.

 

 
BREVES CONSIDERAÇÕES

  por João Salazar Leite ( joaoleite@cases.pt )

 

Problemas antigos e de atualidade os que Desidério Costa, que foi Secretário e depois Director da Unicoope, levanta.

Diga-se que após a sua morte, o seu espólio foi pela viúva entregue à Biblioteca António Sérgio onde hoje pode ser consultado. Idêntico caminho levaram os espólios de Manuel Sertório, João Sá da Costa e Fernando Ferreira da Costa.

O Boletim cumpre a sua função educativa ao regressar periodicamente ao tema. Desta vez fala, porém, um dirigente cooperativo ativo, e por isso se reproduz o seu longo escrito.

A resposta às perguntas que coloca pode ser múltipla. Somos iguais e diferentes dos outros. Iguais nas capacidades, diferentes na educação de base latina, mais católica que protestante, com consequências visíveis no movimento por ser um movimento de e para as pessoas. Veja-se Itália, com um Norte que sofreu mais a influência germânica, e menos a do Papa, que o Sul, e que talvez por isso tenha muito mais cooperativas ainda hoje.

Aflora-se no artigo a questão da visibilidade, sob a capa da propaganda. Costa tem, porém, a noção que propaganda não basta; há que ser perseverante no caminho, e não deixar andar, caminho educativo e formativo, mas sobretudo ação, se possível em intercooperação.

 

 


COMO ASSEGURAR O TREINO E CONTINUIDADE NA DIRECÇÃO DAS COOPERATIVAS?

  Boletim Cooperativista nº 24

  Setembro de 1955

 

……..


A maioria das cooperativas ainda adopta o sistema de eleição total e anual, característico das instituições populares em geral. Ora a experiência tem demonstrado não ser este o melhor sistema. A cooperativa não é uma sociedade qualquer que se limita a cobrar quotas dos seus associados e aplica, as quotizações recebidas, nos fins a que se destina a sociedade. A cooperativa não cobra quotas (*) dos associados; administra o seu capital. As despesas gerais, despesas de administração e de todo o seu funcionamento, devem ser asseguradas por uma boa aplicação deste capital no comércio ou indústria, objecto da cooperativa.


Em tais condições o treino e continuidade das gerências reveste importância excepcional. Como assegurá-lo, dentro das normas democráticas por que devem reger-se as cooperativas?


Isto vem preocupando os cooperativistas e várias formas têm sido ensaiadas, com mais ou menos sucesso, para solucionar o problema.


……. Algumas cooperativas prolongam simplesmente o mandato das gerências de 1 para 2 ou 3 anos. É um passo a caminho da solução. Um período maior de duração do mandato favorece o treino das gerências e a utilização desse treino. Mas apenas um passo, porque, quando o mandato termina, do mesmo modo se encontra a cooperativa perante uma provável solução de continuidade, pela substituição total da gerência.


Por isso algumas cooperativas deram um segundo passo e estabeleceram, tácita ou expressamente, o princípio da renovação parcial dos corpos gerentes. Uma das mais antigas cooperativas de Lisboa, pró exemplo, depois de dura experiência, estabeleceu no seu estatuto o seguinte princípio: O mandato da gerência é de três anos, mas cada ano se procede à eleição de um terço dos seus membros.


Naturalmente, no primeiro e segundo anos foi necessário escolher, de comum acordo, os membros da gerência a substituir, os quais, como é de ver, não exerceram o cargo durante 3 anos, mas em seguida tudo ficou regular. Agora, nos corpos gerentes, há sempre, cada ano, um terço dos seus membros que termina o mandato. Acabou definitivamente a renovação total dos corpos gerentes. Daqui resulta que os eleitos de cada ano se encontram sempre na gerência com dois terços de gerentes possuindo a experiência e treino dos anos anteriores.


Salvo melhor opinião, afigura-se-nos este sistema uma boa e democrática solução, tanto mais que a sua prática revelou ainda uma outra vantagem que não é para desprezar.


Nesta, como noutras cooperativas, como de resto nas organizações que funcionam democraticamente, manifesta-se por vezes uma coisa desoladora: a prática do trabalho, o temperamento diferente dos seus membros e, quase sempre, as concepções políticas ou filosóficas divergentes de cada um tendem à formação de grupos, mais ou menos estáveis que se entrechocam nas Assembleias Gerais e, na medida em que tomam um aspecto sistemático, geram inimizades e ódios w chegam a transformá-las em pequenos parlamentos, onde muitas vezes os interesses de grupo se sobrepõem aos da colectividade. Sem dúvida, é sempre interessante e mesmo necessária a controvérsia, numa organização popular e democrática, como a cooperativa, mas quando degenera nisto torna-se evidentemente prejudicial.


Pois bem, a aplicação deste sistema tirou a esta luta exasperada e sistemática de grupos o objectivo principal que em geral se procura atingir: uma vitória total na Assembleia eleitoral, pelo esmagamento completo do grupo considerado como adversário. Como esta vitória total deixou de ser possível e como, pelo contrário, na eleição parcial de corpos gerentes, os novos eleitos são forçados a cooperar na responsabilidade e no trabalho da gerência, com os antigos, daqui resultou, praticamente, a amenização destas lutas, com proveito evidente da cooperativa.

(*) Algumas cooperativas cobram quotas chamadas administrativas, dos seus associados, destinadas às despesas de administração, mas isto nada é, ou afigura-se que não deve ser, mais do que uma medida de emergência que, logo que seja possível se deve eliminar.

 

 
BREVES CONSIDERAÇÕES

  por João Salazar Leite ( joaoleite@cases.pt )

 

O artigo da responsabilidade dos editores toca em matéria sensível, mas que dirigentes e legislador devem ponderar.

A cooperativa deve manter uma atuação linear ao longo da sua vida, que se não compadece, de facto, com periódicas quebras de ritmo derivadas à substituição integral dos seus eleitos dirigentes. Pode-se não recorrer a uma substituição como a que é preconizada, pode ser outro o período da eleição intercalar, mas há vantagem em que isso se faça, para preparar a continuidade. Quanto mais homogéneo for o corpo social, maior é também a hipótese do recurso a suplentes, que sem voto mas com voz, podem ir acompanhando a gestão e formando-se passo a passo.

O que o Boletim propõe não me parece resolver a questão da luta de grupos e o prejuízo que ela causa a uma cooperativa. Se o candidato a cooperador estiver bem informado, sabe desde logo com o que conta ao aderir, ou sabe recusar essa adesão. Pode por vezes não ter alternativa, com uma consequente sua menor participação social, mas também numa sociedade ou associação, assente em homens e não em capitais, isso acontecerá sempre. Não se trata de algo que é específico das cooperativas. A mensagem a passar é a da neutralidade política, religiosa, racial que as cooperativas levam à prática. Se depois no dia a dia a política, ou outro fator, influencia a vida cooperativa, essa é uma questão de violação dos princípios e valores cooperativos, que como tal deve ser denunciada e banida.

Diga-se ainda que os problemas enunciados são tanto maiores quanto for maior a dimensão da cooperativa, em membros e em termos económicos. Mas há que eliminar de vez a teoria, a visão, de que as cooperativas foram criadas só para os economicamente débeis ou que têm uma dimensão local, micro. Já Rochdale foi uma cooperativa para operários remediados, porque exigia 4 libras para que a ela pudessem aderir, e à época poucos eram os que tinham essas poupanças para aplicar.

 

 


O COOPERATIVISMO E O ESTADO

  por AntónioSérgio da Coop Aliança Operária

  Boletim Cooperativista nº 25

  Outubro de 1955

 

Enquanto o político ostenta a pretensão de fazer ele próprio a felicidade do Povo, o cooperativista só pretende convencer este último a dar-se a si mesmo aquilo de que mais precisa, a libertar-se a si mesmo em relação às circunstâncias que lhe são contrárias, às instituições económicas que o prejudicam.


Em meu entender, o Estado e os políticos devem auxiliar o cooperativismo, legislativa, cultural e financeiramente: mas de tal maneira que não dirijam nunca, que não obriguem nunca, que nunca tenham a pretensão de comandar, por pouquíssimo que seja. O cooperativismo há de ser sempre absolutamente voluntário e livre, nada deve nele existir que seja obrigatório. No cooperativismo só cabe dirigir ao próprio Povo, quer dizer, aos representantes dos compradores e dos produtores por eles próprios eleitos.


Não quer isto dizer que nos abstenhamos de pedir ao Estado que, sem dirigir, auxilie; e o que podemos desde já pedir ao Estado parece-me ser o seguinte:

  1. criação de uma Direcção Geral, ou Repartição, ou Junta, onde se tratem todas as relações entre o Estado e as Cooperativas, de qualquer espécie que estas sejam (de consumo, industriais, de habitação, de crédito, agrícolas, pecuárias, etc.), de maneira a evitar conflitos de jurisdição entre vários sectores oficiais quando se trata de criar e fazer funcionar cooperativas;

  2. criação de uma Comissão do fomento do Cooperativismo, composta de representantes das cooperativas e de funcionários e representantes do Estado, mas de maneira que os representantes do Estado nunca se imponham às Cooperativas e lhes cerceiem o seu carácter de absolutamente voluntárias e livres;

  3. execução do decreto já existente que cria a Caixa de Crédito às Cooperativas (na Caixa Geral de Depósitos), a qual deveria ser dirigida, por exemplo por dois representantes das Cooperativas e por um funcionário da Caixa Geral de Depósitos, depositando as cooperativas naquela Caixa de Crédito todo o seu dinheiro, e concorrendo para o capital da Caixa o Estado, – concedendo-lhe, por exemplo, todos os anos, a importância com que contribuem os operários para o Fundo de Desemprego, devendo essas importâncias consagrar-se à construção, reparação e ampliação de edifícios das Cooperativas;

  4. criação de aulas sobre cooperação nas escolas de todos os graus de ensino;

  5. criação de cooperativas escolares;

  6. permissão da venda ao público pelas cooperativas de consumo, sob condição de se empregarem em obras de utilidade geral os excedentes provenientes dessa venda ao público;

  7. promulgação de um Código do Cooperativismo;

  8. construção de um edifício para a Cooperativa em todos os ‘bairros populares’ que se edificarem.


Quanto aos intelectuais que se interessam pelo Cooperativismo, compete-lhes manterem-se na maior discrição, auxiliando o Povo a ver bem os seus problemas, propondo-lhes planos de desenvolvimento do Cooperativismo, mas nunca sobressaindo ou buscando ‘importância’, com horror à ideia de comandar ou de dirigir. Quanto menos sobressaírem, mais úteis poderão ser. O espírito é tanto mais espírito quanto mais destituído de poder, de insígnias, de nome nos jornais e de vulto. O objectivo do educador, do bom estadista e do apóstolo é preparar o Povo para que eles se tornem dispensáveis.

 

 
BREVES CONSIDERAÇÕES

  por João Salazar Leite ( joaoleite@cases.pt )

 

Este regresso de Sérgio a uma temática que havia publicado anos antes, vale sobretudo por sentirmos que Sérgio está a falar de si próprio, que retoma o tema corrigindo mal entendidos que porventura terão existido antes. Por isso assina como associado da Aliança Operária, como cooperativista de base.

Já denota no seu programa reivindicativo reconhecer cooperativas de todo o tipo, chegando mesmo a propor cooperativas escolares, e pela primeira vez no Boletim, que não nas suas obras editadas, as aulas de cooperativismo em todas as escolas de todos os graus de ensino.

Em considerações a artigos anteriores já relevámos a adoção pelos discípulos de parte do seu caderno reivindicativo. Direi aqui que a preocupação em ‘evitar conflitos de jurisdição entre sectores oficiais’ esteve presente na criação do Inscoop, que na sua primeira orgânica dispunha de um departamento de coordenação, visando concertar atividades com os núcleos de apoio cooperativos que existiram ou deveriam ter existido em todos os Ministérios do 1º Governo Constitucional. Foi uma batalha perdida, sobretudo com o Ministério da Agricultura, cuja divisão de associativismo agrícola conseguiu quase sempre que o Inscoop não interviesse na sua área de influência. E foi também perdida nos Governos seguintes, que foram aos poucos fechando os serviços dedicados a cooperativas que tinham sido criados, o que levou a que na primeira revisão do estatuto do Inscoop o departamento de coordenação tivesse caído.

Gostei de ler a última reivindicação ao Estado, já que para a atual economia social tenho uma ideia parecida, a da criação de uma Casa da Economia social pelo menos em cada concelho, e onde se viriam a sedear as organizações de economia social que quisessem, podendo aí partilhar serviços, interpenetrarem clientelas, poupar dinheiro, ganharem peso local e regional. Porque não uma contribuição pública para um tal programa?

Referência final ao referido em 3. O Decreto de criação na Caixa Geral de Depósitos, através do passo intermédio ‘secção de crédito cooperativista’, de um embrião de Banco Cooperativo é de 1925, o Decreto 10634. O diploma nunca foi regulamentado, promessa constante do seu artigo 77º. E, presumo, a razão mais evidente terá sido a mudança de regime ocorrida em 1926. Sérgio mantém, pois, ilusões de que a regulamentação ainda venha a acontecer 30 anos depois.

Outra das razões para a não criação liga-se à ‘emancipação’ do crédito agrícola. Quase um século depois assistimos à progressiva transformação das caixas de crédito agrícola mútuo em banco universal. Fica o voto, de que uma vez concluída essa transformação haja um olhar primeiro para o restante setor cooperativo na política que for traçada, e respetiva concretização célere e em diálogo permanente.

 

 


GLOSA

  por António Sérgio (da Coop Aliança Operária e Fraternidade Operária – Ateneu Cooperativo)

  Boletim Cooperativista nº 26

  Novembro de 1955

 

O nosso querido Amigo, o Professor Henrique de Barros, na sua excelente conferência promovida por este Boletim, e pronunciada na Cooperativa dos Trabalhadores de Portugal, declarou-se adepto do cooperativismo, mas não um fanático do cooperativismo. Talvez convenha advertir aqui que tal declaração era escusada, já que o espírito cooperativista é de todo incompatível com o fanatismo. A noção de um cooperativista fanático seria assim como a de um preto branco, como a de um círculo quadrado. Não há, não pode haver, qualquer verdadeiro cooperativista cooperativista que seja um fanático do cooperativismo.


A noção de fanatismo implica, com efeito: (1) a de dogmatismo, a de exclusivismo, a de totalitarismo: (2) a de unilateralidade (quer dizer, a de se ver um só lado de qualquer coisa, um só aspecto de qualquer problema): (3) a do pendor ao emprego da violência para impor a ideia de pessoa fanática.


Ora bem. O cooperativista, em primeiro lugar, não pode ser dogmático, nem exclusivista, nem totalitário. A própria ideia cooperativista tem numerosas formas de aplicação. A cooperativa de consumo, a cooperativa de crédito, a cooperativa de habitação, a cooperativa de produção, a cooperativa de produtores individuais para transacções em comum, a cooperativa de lojistas para um armazém em comum, a cooperativa de capitalistas para comprarem a outros capitalistas, etc., etc., são formas diversas de cooperativismo. Esta largueza da ideia cooperativa já se não coaduna com o fanatismo.


Por outro lado, não pretende o cooperativista que só existam instituições cooperativas, que só haja economia cooperativa. Nada disso. O que quer é que se crie na sua própria Nação um sector cooperativo cada vez mais amplo, inteiramente aberto à admissão de todos os que queiram entrar para esse sector económico, de forma que os indivíduos que tal desejarem possam viver em regime socialista, embora existindo no agregado nacional um sector não–cooperativista e capitalista, e embora o Estado a que pertença o indivíduo não seja um Estado socialista. Sabemos que o pequeno produtor agrícola tem apego à ideia de propriedade, à de possuir um agrozinho que seja só dele (como o nosso Amigo muito bem acentuou) e não pensamos em privá-lo da propriedade, em obrigá-lo pois a fazer-se membro de uma cooperativa agrícola de produção: só cuidamos de convencê-lo a ligar-se com outros, em cooperativas de proprietários para transacções em comum. Quem quer que pretendesse mais do que isto já entraria talvez pelo fanatismo; mas não pretende mais do que isto qualquer verdadeiro cooperativista. E que haja cooperativas de produção agrícola para os que não sintam apego à propriedade individual de meios de produção.


Ao programa que nós propomos já se tem chamado ‘cooperativismo integral’, e não rejeitamos a designação que lhe deram: entenda-se, porém, que o nosso cooperativismo é um cooperativismo integral dentro do sector cooperativista, e não no todo da Nação respectiva. Não é integral por abranger toda a Grei, senão por satisfazer o mais bem possível todas as necessidades materiais dos seus sócios. Desejamos um sector de cooperativismo integral para quem queira viver em cooperativismo integral, em regime de socialismo libertário e fraterno, e admitimos um sector de economia capitalista para quem queira viver sob regime capitalista. Não visamos a emancipar nenhum homem à força. Com su pan se le coman. Cooperativismo integral para os cooperativistas, para os que têm ideal de socialismo livre: nada mais; e não sonhamos em obrigar alguém a entrar para o sector cooperativo. Não é fanático de uma ideia quem não pretende impingi-la aos outros, quem se aflige de que os demais a rejeitem.


Já se vê, pelo que aí dizemos, que não pode haver num cooperativista autêntico o menor espírito de uniteralidade(*). Não nos mortificamos de que permaneça na Nação um sector de economia capitalista, onde se abasteçam aqueles que o quiserem; mas almejamos que se não seja forçado a lutar sob um regime capitalista, por não existir um sector cooperativo onde se possa gozar da paz económica. Só trabalhamos por que venha a criar-se um sector de economia cooperativa para as coisas essenciais ao viver do homem (a alimentação, a habitação, a mobília, o vestuário) aonde vão acolher-se os nosso compatriotas que quiserem libertar-se do capitalismo. Os outros que vivam no capitalismo (no sector de economia capitalista) e que se sintam felizes vivendo nele. O sector cooperativo é um porto de abrigo na costa tempestuosa do capitalismo; quem quiser a tempestade que fique lá fora.


Sabe-se, por outro lado, que o cooperativismo só merece tal nome quando é absolutamente voluntário e livre; que repele de todo a tirânica ideia de obrigar ao cooperativismo quem quer que seja; e que os cooperativistas, por consequência, abominariam o emprego da menor violência, do menor constrangimento, da menos pressão, para levar alguém para o cooperativismo.


É inconcebível, portanto, que se seja um fanático do cooperativismo.


(*) Manteve-se aqui e noutros pontos do artigo a versão literalmente publicada. Temo-lo procurado fazer em todos os artigos recuperados.

 

 
BREVES CONSIDERAÇÕES

  por João Salazar Leite ( joaoleite@cases.pt )

 

Sobre a polémica do ‘fanatismo’ escreverei nas considerações ao próximo artigo.

Quanto ao mais, temos uma verdadeira declaração política de defesa do socialismo, por um lado, e por outro, desde que o Boletim começou a ser publicado, a primeira defesa por Sérgio de um ‘Sector cooperativo’, contraposto ao sector capitalista. Sérgio defende assim um sector cooperativo dentro da Nação, que parece ter deixado de ser a Nação Cooperativa, ou como refere o ‘cooperativismo integral’.

Noutro escrito Sérgio concretiza a sua teoria do setor: «o objetivo final dos cooperativistas é a criação na Sociedade de um setor cooperativo apertadamente entretecido, tão completo que tornasse possível a todo aquele que o desejasse viver em regime socialista». O setor seria visto em função da sua ‘completude’, da sua extensão, da sua velocidade de propagação. Para que ele exista as várias espécies de cooperativas deveriam estar ligadas de forma a concretizar um ‘sistema social de auxílio mútuo e planejamento das relações económicas’, sendo que na condução desse desiderato encontramos as cooperativas de consumo.

O setor seria um de quatro setores económicos: cooperativo, capitalista, público e o das pequenas unidades económicas. Este seria aliado do cooperativo na luta contra o setor capitalista, luta que terminaria numa fase intermédia com dois setores: o público, de socialismo de Estado, e o cooperativo. O público viria a auxiliar o cooperativo fomentando o seu desenvolvimento. No final teríamos a Nação Cooperativa, que como se disse já não parece realista nesta fase da vida de Sérgio.

 

 


A ESTRUTURA AGRÁRIA PORTUGUESA E O COOPERATIVISMO

  Resenha da Conferência proferida pelo Prof. Henrique de Barros na Cooperativa dos 
  Trabalhadores de Portugal

  Boletim Cooperativista nº 27

  Dezembro de 1955

 

O Conferente começou por dizer estar convencido de que ia dirigir-se aos cooperativistas, a gente que acredita – disse – «ter encontrado na prática dos princípios rochdaleanos e na ampliação destes a outras esferas que não as do mero consumo, o remédio mais genuíno para os achaques sociais».


Depois, declarando-se adepto fervoroso do Cooperativismo, conquanto não seja devoto nem fanático de coisa alguma, afirmou que «a nossa tão manifesta insuficiência produtiva em confronto com a da maioria das nações da Europa não deve atribuir-se exclusivamente a defeitos estruturais», em virtude de os dois factores basilares da produção agrícola que são o solo e o clima se apresentarem em geral desfavoráveis.


Seguidamente e ocupando-se da repartição da propriedade, apontou a existência de latifúndios em Portugal, pois estes não são mais do que «vastas propriedades privadas submetidas a sistemas de agricultura extensiva, rendendo por unidade de superfície muito menos do que, em face das possibilidades, ambientes e do adiantamento técnico da época, poderiam facilmente render». Das possíveis reformas agrárias tendentes à eliminação dos latifúndios, declarou o conferente que, aquela que maiores perspectivas de êxito apresenta é a que «consistisse na divisão dos antigos latifúndios em numerosos lotes destinados a serem explorados por outras tantas empresas agrícolas familiares».


Como complemento necessário deste tipo de empresas, disse que «uma superestrutura cooperativista é o único meio eficaz que se conhece de garantir condições de sobrevivência e perspectivas de prosperidade a uma região explorada por empresas agrícolas do tipo Camponês».

Quanto à gama possível de aplicações dos princípios cooperativistas, ocupou-se sumariamente das seguintes: 1) compra em comum de produtos necessários à exploração agrícola; 2) utilização escalonada de material agrícola pesado e dispendioso; 3) a industrialização colectiva de certos produtos da terra: vinhos, azeites, lacticínios, moagem, etc.; 4) a venda em comum dos produtos destinados aos grandes mercados (internos e externos); 5) o crédito agrícola mútuo; 6) o seguro agrícola cooperativo.


Tratou depois dos minifúndios, esclarecendo que estes são propriedades insuficientes. «Insuficiente porque não assegura emprego permanente à família agricultora; insuficiente porque não pode produzir o bastante para facultar ao lavrador e à sua gente condições de existência». Afirmou então que uma estrutura agrária tipicamente minifundiária é um obstáculo com que depara o cooperativismo, pelo que há principalmente que contar «com a remodelação da legislação civil relativa à sucessão nos bens rurais tendente a evitar a destruição da propriedade familiar».


Em seguida tratou o conferente dos sistemas de inquilinato agrícola, mostrando a injustiça do mesmo no nosso país, pois a entidade cultivadora «é obrigada a pagar ao proprietário um valor superior àquele que mede a contribuição deste para o acto produtivo».


Por fim aludiu ao desemprego periódico (fenómeno tão característico da agricultura extensiva, aios salários insuficientes, à escassez de crédito, à má repartição dos impostos, às deficiências em matéria de seguro agrícola, à insuficiente assistência oficial, etc., declarando que todos esses defeitos e vícios poderiam encontrar remédio na criação e expansão das cooperativas.


A terminar, afirmou o Sr. Prof. Henrique de Barros: «Reformar a estrutura agrária nacional é um imperativo dos nossos dias. Reformá-la, porém, sem recorrer amplamente às soluções cooperativistas seria o mesmo que um médico actuar sem conhecer a medicina moderna». E as últimas palavras do ilustre conferente foram: «as armas do arsenal cooperativista são as que mais profundamente podem ferir esses inimigos seculares do género humano que são a ignorância, a cupidez, o egoísmo e a ânsia de mandar!».


Prolongadamente aplaudido, o Sr Prof. Henrique de Barros respondeu…………..

 

 
BREVES CONSIDERAÇÕES

  por João Salazar Leite ( joaoleite@cases.pt )

 

O que mais me admira neste discurso é a coerência que Barros demonstrou com o que defendia, no dia em que pode assumir funções políticas que lhe permitiram concretizar as suas ideias.

Como assessor dele que fui no 1º Governo Constitucional, posso testemunhar as várias reuniões que decorreram no Gabinete entre ele e o Dr António Barreto sobre a Lei da Reforma Agrária, e como ela veio de encontro a muitas das ideias que Barros defende no seu artigo escrito duas décadas antes.

Por que o conheci de perto, e pelo que li do escrito pelo colaborador do Boletim que assistiu à Conferência proferida, não compreendo o ataque de Sérgio, o assumir das dores de ‘fanático’ que parece fazer. Barros, a menos que tivesse mudado muito em vinte anos, jamais seria capaz de ter usado a oportunidade da conferência para atacar uma pessoa que muito considerou, como o tempo veio a demonstrar.

Quem leu os artigos anteriores de Sérgio que tenho vindo a recuperar, poderá constatar que ele reage na primeira pessoa às posições de outros que não estejam totalmente em sintonia com as suas, mas porque o não conheci pessoalmente apenas me limito a um registo do facto.

Aliás, Sérgio termina a concordar com Barros ao escrever na sua Glosa que o cooperativismo só merece tal nome quando é absolutamente voluntário e livre; que repele de todo a tirânica ideia de obrigar ao cooperativismo quem quer que seja. Em lado nenhum no artigo Barros quer violar tais máximas.

Sobre a conferência de Barros uma nota para dizer que a defesa do cooperativismo agrícola que faz, e que foi desenvolvida nos primeiros volumes editados (reeditados) após a criação do Inscoop, ‘Cooperativismo – Objectivos e Modalidades’, é lúcida, adequada à realidade vivida, e sobretudo refere algo que parece ainda não estar totalmente interiorizada pelos portugueses. De facto, numa economia globalizada, os solos e o clima que temos não nos permitem vencer qualquer tipo de luta com concorrentes europeus. Podemos produzir para nós próprios. Fora disso, poucos serão os setores em que seremos capazes de competir com armas iguais. E como se tem visto, mesmo quando o somos, acresce o factor transporte para os mercados da Europa Central das nossas produções, sujeito aos humores nacionalistas e regionalistas dos nossos vizinhos ibéricos e não só.

A última frase, essa deve ser bem retida por todos. Se for reproduzida, mantém-se atual e enobrece quem a reproduza.

 

 


DECLARAÇÃO

  Direcção da UNICOOPE

  Boletim Cooperativista nº 33

  Junho de 1956

 

Os delegados presentes na Reunião magna, promovida pela Unicoope – União Cooperativa Abastecedora – aos 1 de Junho de 1956 devidamente credenciados pelas suas cooperativas, cônscios de que interpretam o pensamento e os sentimentos dos seus associados e dos cooperativistas portugueses, em geral, e tendo em conta as dificuldades materiais e ambientes do cooperativismo português, resolvem votar, na presente declaração, os seus princípios e objectivos fundamentais:

1 – Consideram o Cooperativismo um movimento de adesão livre e controlo democrático (um voto por cada sócio), isento de objectivos lucrativos, constituído para defesa ou independência económica dos associados e melhoria das suas situações culturais e sociais;

2 – Entendem que o movimento orgânico cooperativo se realiza através das cooperativas, suas unidades de base, e da livre união destas em Juntas, Federações ou Uniões, à escala regional ou nacional, no sentido da consecução dos seus objectivos comuns ou complementares, em conformidade com os tipos de cooperativas constituídos: produção, escoamento de produtos, consumo, habitação, culturais, etc.

3 – O movimento cooperativo português deverá organicamente observar rigorosa neutralidade política e religiosa, aceitar livremente no seu seio individualidades de todas as classes sociais, de reconhecida honorabilidade, de que não importa conhecer os princípios políticos, religiosos ou filosóficos, que professam fora do movimento cooperativo; consequentemente, consideram de combater no seu seio toda e qualquer tendência que pretenda colocar o movimento cooperativo orgânico ao serviço de qualquer organismo que não o consubstanciado no mero exercício da sua actividade económica e social;

4 – Reconhecem a necessidade de conjugar os esforços da unidade das cooperativas portuguesas, com vista a tornar mais profícuo e útil o exercício das suas actividades, para o que lhes parece conveniente:

a) Realizar o trabalho em comum de propaganda cooperativista, através da imprensa ou outros meios legais, nomeadamente do seu órgão privativo o Boletim Cooperativista, a fim de alargar à população o mais lato conhecimento dos princípios e benefícios do cooperativismo;

b) Que a propaganda seja orientada, não só no sentido da difusão da teoria cooperativista no público em geral, como no convencimento, entre os associados das cooperativas, da vantagem de enriquecer as suas cooperativas com capital e de lhes dar a dedicação e a acção do seu esforço pessoal para incremento da sua actividade e consequente melhoria dos benefícios colectivos;

c) Envidar esforços junto das suas cooperativas e doutras similares para que se promova a coordenação de trabalhos e a colaboração económica das cooperativas, em unidades orgânicas de grau imediato, dentro da União Cooperativa Abastecedora ou da Junta de Compras do Norte, ou a exemplo destas, até à realização da Unidade Orgânica do Movimento Cooperativo Português;

5 – Confiam à Unicoope – União Cooperativa Abastecedora, – por si ou de colaboração com a Junta de Compras do Norte e doutras que venham a constituir-se, a iniciativa de entabular consultas entre as cooperativas ou de convocar novas reuniões de delegados das cooperativas com vista à gradual realização dos objectivos expressos nesta declaração.

 

 
BREVES CONSIDERAÇÕES

  por João Salazar Leite ( joaoleite@cases.pt )

 

A 19 de Dezembro de 1955 nasce a UNICOOPE, que viria a ser detentora do Boletim Cooperativista. Os seus objectivos são publicados no nº 28 do Boletim, de Janeiro de 1956, ao mesmo tempo que as ideias de Sérgio e seus colaboradores a ‘invadem’.

Mais que comentar a Declaração, far-se-á um pouco a história de como a ela se chegou.

O nº 29, de Fevereiro, abre com um artigo de Sérgio sobre os 5 anos do Boletim, artigo onde republica as suas ideias que ainda não haviam sido implementadas. Justifica assim a republicação: «Talvez se pense que no que aí ficou dito há dois defeitos graves: por um lado, o de ser uma repetição do que já tenho proposto frequentemente; por outro, o de ser um plano muito ambicioso, que só pode ser realizado a longo prazo.


A isto respondo: em primeiro lugar, que, quando visamos um objectivo prático, convém repetir muitas vezes as mesmas coisas, para as radicar nos cérebros do público e para ir levando as ideias a cada vez maior número de pessoas; em segundo, que quanto mais grandiosos são os planos, mais suscitam entusiasmo; em terceiro, que importa ter sempre em mente o objectivo final que nos propomos; em quarto, que ninguém pode prever o tempo que levará um objectivo a ser alcançado, pois ocorrem às vezes circunstâncias favoráveis e imprevistas, que devemos estar preparados a saber aproveitar; e em quinto, finalmente, que o facto de pensarmos sem cessar no nosso objectivo é um factor de apressamento da sua realização.»

Os números seguintes começam a dar relevo às atividades da UNICOOPE, bem como neles se sucedem artigos em série de Lúcia nobre sobre as ‘Mulheres e a actividade cooperativa’ e de M. Correia sobre o ‘Cooperativismo em Israel’.

Os objectivos da Reunião magna a que se refere o artigo sob comentário constam do que os redatores do Boletim designaram ‘Plano de Trabalho Imediato’, extensamente publicado no nº 32, de Maio de 1956, cujos títulos reproduzo:

  1. Propaganda
    1. Análise dos processos a utilizar e elaboração de um programa comum a ser difundido nas diferentes cooperativas.
    2. Análise do papel a desempenhar pelo Boletim Cooperativista. 
  2. Organização
    1. Estudo da organização de Comissões Femininas e Juvenis de carácter cultural e desportivo, como auxiliares das Direcções das suas cooperativas e para a difusão dos ideais cooperativos.
    2. Estudo das possibilidades de organização de novas Juntas de Compras na Província como ensaio para a realização de transacções em comum.
    3. A Unicoope como primeiro Armazém Cooperativo.
    4. Análise das possibilidades de criação de uma Caixa de Crédito Cooperativa
  3. Conclusões
    1. Eleição de uma Comissão de Intercâmbio Cooperativo (Centrocoope)
    2. Estreitamento de contactos com a Aliança Cooperativa Internacional.
    3. Declaração Comum.

Na Reunião magna estiveram presentes 33 cooperativas de consumo, agrícolas e de habitação

 

A Declaração reflete em parte o que esteve em debate e a ‘agenda’ dos responsáveis pelo Boletim. Este entra em nova fase, como se verá no artigo comentado seguinte.

 

 


QUE DEVERÁ SER DE FUTURO O «BOLETIM»

  Um órgão de doutrina, uma folha recreativa ou uma combinação das duas?
  António Sérgio

  Boletim Cooperativista nº 34

  Julho de 1956

 

Este nosso Boletim veio à luz e vingou graças à dedicação, à generosidade, e ao espírito de sacrifício do meu amigo o Dr Fernando Ferreira da Costa, – acompanhado pelo Dr. João Sá da Costa e pela Doutora Maria Lúcia Nobre, e mais tarde pelo Sr. Rodrigues Graça. A sua magnanimidade lhe deu nascimento, a sua magnanimidade o tem mantido. E aquilo que se propunha levar a efeito, pode dizer-se que realmente o fez: contribuir para a criação de um verdadeiro «espírito cooperativista», – entendendo por «espírito cooperativista» a ideia e o sentimento de que as cooperativas devem ser, não apenas organismos práticos que trazem vantagens imediatas, de natureza exclusivamente económica, aos indivíduos que são seus sócios, mas também instrumentos de uma reforma humaníssima (económica sim, mas ao mesmo tempo moral) que venha modificar de maneira profunda as relações entre os homens na Sociedade, criando um sector cooperativo vasto, onde estejam banidas a procura do lucro, a luta de interesses, a exploração de uns homens por outros homens, graças ao planeamento de toda a produção de bens, no sector cooperativo da economia pátria, pela directoria da Federação das Cooperativas de Consumo. Pode-se dizer que antes do Boletim havia cooperativas no nosso país, mas que não havia ainda a unidade de um verdadeiro movimento cooperativo, integrando as cooperativas e os cooperadores na prossecução de um amplo objectivo comum: o de realizar o socialismo cooperativo, a que se chamou também cooperativismo integral.


Ao mesmo tempo, os que sustentaram este pequeno periódico pretendiam dar à sua discreta interferência o carácter que é próprio de toda a acção pedagógica: o de trabalharem com o intuito de se tornarem dispensáveis. Em seu juízo, o mais cedo que fosse possível o Boletim passaria para as cooperativas, que iriam a ser as proprietárias da folha, e, através das pessoas por elas nomeadas, as suas directoras e redactoras.


Até hoje, conservou-se o meu nome no seu cabeçalho por uma vantagem prática ocasional, que não vale a pena explicar aqui. Desaparecerá, por consequência, logo que as circunstâncias o permitirem (sempre pelo ideal de me tornar dispensável, de passar para a sombra).

Além disso, surgiu um problema, que cumpre encarar com bom humor e com calma.


Conviria que o Boletim, ao passar inteiramente para as mãos das cooperativas (com desaparecimento dos indivíduos que no seu início o mantiveram) não perdesse inteiramente o seu principal intuito: o de apresentar o ideal do socialismo cooperativo e suscitar militantes perfeitamente conhecedores das ideias fundamentais da nossa doutrina, aptos a trabalharem para lhe dar efeito, criando um pujante sector cooperativo.


Infelizmente, porém, a maioria dos sócios das cooperativas são ainda cooperadores por assim dizer inertes, sem bastante dom de entusiasmo, de espírito progressivo, de ânsia de emancipação, de generosidade humanitária, de amor do próximo, para poderem tornar-se militantes autênticos do nosso ideal de socialismo livre, fora do Estado. Limitam-se a ver na sua cooperativa uma fornecedora de géneros a menor preço (graças ao retorno no final do ano), de boa qualidade e de peso exacto, ou uma espécie de club para passar a noite (o que elas devem ser). Ora, esses sócios não se interessam pelo Boletim tal como hoje se lhes apresenta. E daí a pergunta: como tornar o Boletim interessante para a maioria dos sócios das cooperativas, amigos que merecem a nossa maior afeição, mas ainda falhos daquela chama interior que caracteriza os apóstolos e os militantes?

Para resolver esse delicado problema, tenho sugerido que se introduzam no Boletim secções que interessem toda a espécie de cooperadores, masculinos e femininos, – incluindo, até, uns pequeninos contos; porém, houve um camarada e amigo nosso, na Reunião Magna de 1 de Julho, que me pareceu tender para a supressão total dos artigos de carácter doutrinário (por serem inacessíveis à maioria) e que apelou a mim nesse sentido.


Ora, se as cooperativas adoptassem tal programa, eliminando do Boletim as questões de doutrina, eu resignar-me-ia de cara alegre e buscaria outro veículo para doutrinar; todavia, pergunto-me se não foi um pouco exagerado aquele nosso simpático camarada, ao solicitar-me colaboração em tal propósito. O que me compete a mim é o conceber ideias, apresentar desígnios, formular programas, pregar a doutrina do cooperativismo integral: não é a função (decerto meritória e extremamente simpática, mas para a qual não estou particularmente indicado) de entreter aqueles sócios das cooperativas que só vêem nelas a utilidade imediata de fornecer um retorno no fim do ano. O meu ideal não pode, evidentemente, ser de que o Boletim passe a não ter doutrina, para assim ser mais atractivo para os cooperadores não militantes. O meu ideal terá de ser – só poderia ser – que todos os cooperadores passem a interessar-se pela doutrina e a serem militantes do socialismo cooperativo.


Se do nosso Boletim Cooperativista tiver de desaparecer a doutrinação (o que não creio indispensável nem provável) o dever dos fundadores passará a ser duplo: por um lado, ajudarem quanto lhes for possível a torná-lo interessante para os cooperadores inertes, até à custa da supressão da doutrina; por outro, tentar criar um novo método qualquer para suscitar o aparecimento de militantes autênticos, que trabalhem por instaurar o cooperativismo integral. E já hoje não faltariam numerosos Amigos que nos quisessem acompanhar nessa obra grandiosa, que alguns julgarão fantasista e quimérica, mas que continuamos a supor indispensável.

 

 
BREVES CONSIDERAÇÕES

  por João Salazar Leite ( joaoleite@cases.pt )

 

O artigo permite-nos conhecer o que Sérgio pensa de si próprio e da sua missão.

Permite-nos também conhecer quem estava por detrás dos artigos não assinados, a redação. Um deles, Ferreira da Costa, foi o responsável primeiro por aqui estar hoje a escrever-vos (ao abandonar o Inscoop ofertou-me uma colecção quase integral do Boletim Cooperativista). Foi também o primeiro presidente do Inscoop, que nas palavras de Henrique de Barros ao criá-lo, revejo agora algo do que Sérgio escreveu. Disse Barros que o Inscoop existiria até ao dia em que o movimento cooperativo estivesse em condições (leia-se tivesse criado as estruturas de cúpula) de andar pelos seus próprios meios (leia-se de novo sem o Estado), tal como o Boletim passaria um dia para as cooperativas nas palavras de Sérgio.

Mas o artigo denota ainda os ecos do que terá sido na Reunião Magna o embate entre teóricos e práticos da cooperação, e o modo como aqueles se viam a si próprios. Munidos de uma fé num futuro ‘cheio’ de seguidores da palavra, dificilmente aceitam as opiniões diversas, mesmo se as embrulham em pias palavras com sentido duplo.

Porque decidi partir para este trabalho a partir da ‘descoberta’ cronológica do Boletim, que só acompanhei pessoalmente em fase de renascimento episódico após Abril, estou expectante para ver como evoluiu a partir daqui a ‘presença’ sergiana nas suas páginas.

 

 


 

        Textos 1 a 9

          Textos 19 a 27

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