Boletim Cooperativista comentado

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COOPERATIVISMO: EVOLUÇÃO EMPÍRICA OU PROGRAMADA

  por Fernando Ferreira da Costa

  Boletim Cooperativista nºs 140/141

  Junho/Julho de 1965

 

……………………………………………


4. A necessidade de um plano que esquematizasse os principais problemas cooperativos era por demais evidente. Por essa razão, o «Plano Ames» represente um contributo importante para o movimento cooperativo ……..


No seu aspecto positivo, isto é, na concretização do «Plano» propriamente dito, é que as suas deficiências se evidenciam. Deve reconhecer-se que, no entanto, o objectivo fundamental foi atingido: o reconhecimento de que se impõem medidas que ultrapassam limites de cada sociedade cooperativa de per si, a necessidade de serem organizadas comissões restritas ou especializadas para detalhar o esquema, introduzir inovações, preencher lacunas, dar enfim conteúdo de pormenor às rubricas abertas em linhas gerais, e consequentemente por vezes vagas.


Podem no entanto ser, construtivamente, levantadas algumas questões tais como:

  • Será suficiente considerar apenas as tendências actuais do cooperativismo no mundo, sem se considerar a evolução rapidíssima que se tem verificado nos sectores extra-cooperativos?

  • Será suficiente a adopção de medidas de aperfeiçoamento do statuo quo do movimento cooperativo português, mantendo a sua estrutura actual, ou serão indispensáveis alterações mais profundas para que os resultados não fiquem cerceados num futuro próximo?

  • Será aceitável prosseguir-se nos métodos «evolutivos» acompanhando na medida do possível os exemplos do cooperativismo extra-fronteiras, ou tornar-se-á indispensável «saltar etapas» para recuperar um atraso que compromete seriamente o futuro do cooperativismo português?

Nestes aspectos o «Plano Ames» parece-nos certo mas demasiadamente modesto, porque parte do pressuposto que é necessário afinar a colaboração entre as unidades de base existentes, sem lhes alterar fundamentalmente a estrutura. É, em suma, uma tentativa de procurar a coordenação e a unidade na descentralização: descentralização ponderada no que se refere aos organismos federativos regionais; descentralização tíbia no que se refere à aceitação da balcanização existente dos organismos de base.

………


Registe-se ainda a falta de um elemento fundamental, característica básica de todos os planos sectoriais ou não, até agora elaborados: a ausência de um plano financeiro, de uma política detalhada de investimentos, sem este aspecto, ousamos dizer, não há planos de fomento possíveis, pode haver quando muito uma chamada à consciencialização de problemas latentes.


Mas esta falta não pode atribuir-se ao plano, pois constitui o problema fundamental do movimento cooperativo português que além da sua pobreza de meios se encontra ainda eivado de defeitos resultantes duma mentalidade de individualismo auto-suficiente.


Não pode negar-se a existência de um certo progresso nas relações inter-cooperativas, e parece não ser de esperar que essa evolução positiva cesse a sua marcha. O que se torna absolutamente inviável é esperar que o movimento federativo, tardiamente criado e desenvolvido, venha por si só a criar os meios financeiros necessários a uma política de eficiente fomento cooperativo. Por outro lado, as organizações de base que amealharam retornos sob forma colectiva, investiram essas disponibilidades em bens imobiliários, normalmente não reprodutivos, ou necessitam ainda desses capitais para o seu movimento. ………


Parece termos chegado, pois, a um beco sem saída: sem investimentos planificados não há plano de fomento exequível; sem um plano de conjunto é impossível reunir os recursos materiais a uma evolução consequente.


Ora, na forma actual de evolução portuguesa parece necessário saltar etapas, e por vezes, perdoem-me a opinião, optar por processos, utilizados já em movimentos cooperativos estrangeiros, tidos por menos ortodoxos. Um desses aspectos baseia-se no reconhecimento da importância do capital reprodutivo, e na justa remuneração que lhe é devida quando ela se torna uma necessidade fundamental. Não se podem chamar capitais sem garantias e sem o pagamento do respectivo aluguer pela sua utilização.


Mas, mesmo assim, como proceder a essa chamada de capitais? Eis algumas sugestões que submetemos à vossa apreciação:

  • Recurso a capitais estrangeiros, de origem cooperativa, pela constituição de sociedades anónimas com objectivos determinados, em que sejam salvaguardados os financiamentos cooperativos, nacionais ou estrangeiros, defendendo-se todavia os interesses dos consumidores……….

  • Recurso a capitais cooperativistas nacionais sob a mesma forma prevista anteriormente.

  • Recurso aos capitais ou poupanças privadas dos cooperadores pela constituição de sociedades anónimas de fomento, em que seja considerada uma remuneração ao capital susceptível de interessar a aplicação de economias privadas.

Um outro aspecto, talvez também pouco ortodoxo, é a necessidade de quebrar abertamente o mito da devoção pelas organizações de base que não tenham condições de sobrevivência, e a urgência de reagir contra a balcanização das organizações de consumo. A fusão entre cooperativas de consumo é absolutamente indispensável, e ignorar ou omitir este problema torna-se nas condições presentes extremamente perigoso. Os pequenos e grandes investimentos em bens não reprodutivos, (mais claramente em pedra, cal e cimento), resultante da balcanização actual, dão ocasião a uma dispersão inequivocamente ruinosa das escassas disponibilidades do movimento cooperativo. Em suma, importa encontrar o caminho viável a uma política financeira comum e estancar o mais rapidamente possível as iniciativas que impliquem divergências de capitais, alimentadoras de pequenos orgulhos paroquiais, senão mesmo individuais.


Verificámos como o capitalismo soube calar o orgulho individual e até o nacional para tentar sobreviver. Pois nas circunstâncias económicas actuais, o problema que se coloca é o da sobrevivência do cooperativismo português, e seria estulto sacrificá-lo ao provincianismo mesquinho, ao bairrismo caduco, ao associativismo sem perspectivas.


O «Plano Ames» tocou a campainha de alarme. É suficientemente aberto para conter sugestões e alterações. O que é necessário é que se discuta construtivamente e se procure um caminho que não prefira uma ortodoxia estéril à criação de meios próprios para o caso português na conjuntura económica actual.


No campo cooperativo estamos ainda na fase do liberalismo optimista do laisser faire, laisser passer. Mas os tempos actuais exigem para a própria sobrevivência dos indivíduos e das organizações de base, o cerceamento voluntário das prerrogativas dos velhos tempos, a existência de uma direcção colectiva, de um sério esforço conjunto para uma política comum………

 

 
BREVES CONSIDERAÇÕES

  por João Salazar Leite ( joaoleite@cases.pt )

 

Esta longa conferência de Ferreira da Costa na Cooperativa do Povo Portuense, ocupa 5 páginas deste número duplo, e foi feita com o autor afastado há meses do movimento cooperativo por questões profissionais. A parte que respigámos, porém, mostra-nos um salto teórico do autor, que de uma ligação ao cooperativismo de consumo tradicional evolui aqui para a proposta de soluções ‘heréticas’, fora do movimento, algo muito próximo do que os autores atuais apelidam de híbridos cooperativos.

Mas mais do que o que fica dito, o que para mim mais surpreende, é Ferreira da Costa propor já em 1965, soluções para a formação de capital nas cooperativas que só vieram a ser amplamente discutidas e implementadas mais de duas décadas depois, não pelos suecos de que Ames foi representante na ACI, mas por movimentos canadianos e norte-americanos conscientes de que as cooperativas, qualquer que fosse o seu tipo, para concorrerem nos respetivos mercados necessitavam de mais fundos, que não os apenas entregues pelos seus sócios. Esta discussão transitou na década de 90 para a Europa e teve repercussão na União Europeia, aquando das negociações dos planos de ação comunitários e do estatuto da Sociedade cooperativa europeia, e numa revisão do nosso Código Cooperativo.

 


 

DISCUTIR PARA CONVENCER

  por Vasco de Carvalho

  Boletim Cooperativista nºs 147/148 e 150

  Janeiro/Fevereiro e Abril de 1966

 

Os cooperadores activos não agem indiferentes às opiniões dos seus camaradas e das pessoas que vivem ainda alheadas da Cooperação. Por um lado, têm de permanentemente procurar que os seus consócios assimilem as ideias que se ligam com o aperfeiçoamento e o alargamento da organização cooperativa. Por outro lado, sentem-se obrigados a convencer os homens e as mulheres, ainda estranhos à Cooperação, de que esta proporciona melhoria de vida económica e espiritual.

Quer dizer: os cooperadores militantes – isto é, os que se não limitam a pagar as suas acções, e eventualmente as suas quotas, e a receberem os benefícios da Cooperação – obrigam-se a duas tarefas: uma a de instruírem os outros cooperadores com o fim de os tornar mais úteis à organização cooperativa e à evolução a que esta é obrigada para se desenvolver; outra a de conquistarem para a Cooperação pessoas que esta ainda não assimilou.


Elas têm, portanto, frequentemente de expor as suas ideias e de aceitar e mesmo de promover a discussão.

Como expor ideias e discuti-las? Eis uma pergunta que pode afigurar-se descabida a quem ache dever deixar-se ao acaso e ao critério de cada um a maneira de conquistar adeptos para a Cooperação e para a actividade cooperativa. No entanto, hoje, a preocupação de se obter maior rendimento na acção, qualquer que ela seja (produtora, educadora, etc.) conduziu a adoptarem-se técnicas que, como tudo na vida, evoluem com maior ou menor rapidez. Conquistar novos cooperadores e novos militantes do cooperativismo deve também obedecer a uma técnica para se ter maior êxito.


Em primeiro lugar, parece-nos importante considerar o valor do comportamento dos cooperadores activos. As pessoas a quem ele se dirige são tentadas frequentemente a julgarem as suas ideias, a doutrina que defendem, através da sua maneira de ser e de falar. Com efeito, a seriedade das ideias por que lutamos é avaliada, pela maioria das pessoas, em conformidade com o nosso comportamento quer na vida social quer no meio familiar.


Por seu turno, na maneira de falar e de discutir reside a maior força que fixa a atenção dos nossos interlocutores nas ideias que expomos. Comportamento e forma de discutir são basilares para criar ambiente de confiança em nós e nas nossas ideias e para influenciar as pessoas com quem convivemos.


Falando do nosso comportamento, devemos considerar que depende muito da nossa vontade, mas não podemos esquecer que está condicionado por influências externas e é objecto de reacções provocadas por acontecimentos anteriores que modificaram o nosso modo de ser, de actuar. Estas influências e reacções tornaram uns demasiado acanhados, outros excessivamente ousados, aqueles imensamente desconfiados e prudentes, estes confiantes e desprevenidos em demasia.

Os cooperadores activos precisam de aprender a eliminar, da sua maneira de agir como dirigentes e propagandistas, as influências e reacções que possam impedir o desenvolvimento de uma personalidade forte e atraente. Como tudo na Natureza, a personalidade está continuamente em evolução e esta pode ser acelerada ou retardada pela vontade própria.


………… os cooperadores devem saber dominar-se na discussão, não deixando que as ideias contrárias às suas ou a indiferença perante elas os conduzam a mostrarem-se irritados ou a assumirem atitudes de desprezo e possam, portanto, permanecer calmos em face de interlocutores irritantes. ………..


Os cooperadores activos não devem, portanto, pretender conquistar os seus contraditores com excessiva pressa. Na discussão também se aplica o provérbio tantas vezes citado, mas muitas vezes não seguido, que nos aconselha a ir devagar quando se tem pressa. ………..


Os cooperadores mais conscientes do seu papel na sociedade procuram discutir, com as pessoas que desejam integrar na Cooperação ou com os seus camaradas cujas ideias querem aperfeiçoar, para os convencer do que lhes é útil, do que verdadeiramente lhes interessa. Não pretendem amachucar os seus interlocutores com enorme massa de argumentos, pulverizá-los com afirmações imbatíveis, mas não os persuadir – vencê-los mas não os convencer………….


……….. Para o movimento cooperativo o que interessa não é tanto que sejam as ideias por eles (cooperadores bem formados) defendidas as sempre vitoriosas, mas que sejam aceites e aplicadas, quando justas, mesmo se apresentadas por outrem.


Nas suas conversas, nos seus discursos, nos seus artigos, os cooperadores devem usar uma linguagem convincente e entusiasmante e não, ao contrário, como é frequente, uma linguagem queixosa, entremeada de censuras.


Achamos reprovável, como se ouve muitas vezes em reuniões de cooperativistas, ou se lê nos relatórios das cooperativas, desfiar lamentos pela falta de espírito de cooperação.


……………………..


Entusiasmar e não desencorajar deve ser a preocupação dos militantes cooperativistas quando se dirigem aos outros cooperadores ou aos homens e mulheres que desejam fazer participar dos benefícios da Cooperação. Isto não significa enganar, pois quando se apontam exemplos de trabalho e de dedicação só se mostra que se espera que os interlocutores também trabalho e dedicação.

 

 
BREVES CONSIDERAÇÕES

  por João Salazar Leite ( joaoleite@cases.pt )

 

Artigos formativos como este começam a rarear no Boletim publicado por esta época, e quando o são, recorre-se a textos tão longos que se publicam em dois ou mais números, e nem sempre seguidos.

Referir a militância cooperativa como formadora e conquistadora, aquela dos restantes membros, esta de potenciais novos aderentes, não pode deixar de ser tema sempre presente em todo o cooperativista de corpo e alma. Costumo acrescentar que não vem mal ao mundo que, uma vez por ano, pelo menos, uma qualquer cooperativa se deve reunir para, sem agenda prévia, debater este assunto do reforço do espírito de grupo, do dar a conhecer o sentir de cada um e as respetivas expetativas, na certeza de que a direção verá o seu caminho mais facilitado quando o faz.

 


 

 

AVANCEMOS PARA A COOPERATIVA DE CONSUMO ÚNICA

  a fusão das Cooperativas é uma etapa a percorrer

  Pela Redação
 Boletim Cooperativista nº 158

  Dezembro de 1966

 

Na sua entrevista, concedida ao «Boletim Cooperativista», o conceituado dirigente da «Sacavenense», Sr. José Lopes Pratas, pronunciou-se francamente a favor da fusão das Cooperativas de Consumo de Lisboa e arredores numa só empresa cooperativa.

Igual opinião colhemos numa conversa com dirigentes da Cooperativa de Braço de Prata, no dia de inauguração do Armazém Regional na Venda Nova.

Todos estes nosso interlocutores vêem na fusão das Cooperativas de Consumo, o meio natural e prático, verdadeiramente ao seu alcance, de fortalecer a Cooperação de Consumo, isto é, de criar condições para reduzir os preços e melhorar o serviço aos consumidores e, ainda mais, o que é de maior importância imediata, para suportar a concorrência das grandes empresas do comércio a retalho, nem todas portuguesas, algumas sendo ao mesmo tempo armazenistas e quase todas apoiadas pelo capital financeiro.

Com efeito, esta concorrência que se faz sentir no pequeno comércio retalhista, acabará inevitavelmente por atingir perigosamente as cooperativas, mesmo as mais poderosas, se, entretanto, não se erguer uma forma de unidade Cooperativa de Consumo que responda à situação actual do comércio a retalho e à sua natural evolução.

O «Boletim Cooperativista» tem defendido nas suas colunas, e por mais de uma vez, a fusão das Cooperativas de consumo pelas razões atrás apontadas e congratula-se por agora ouvir opiniões concordantes com a sua, proferidas por dirigentes que compreendem perfeitamente qual é a missão que a cooperação de consumo tem a desempenhar.

A fusão das cooperativas trará consigo maior potencial financeiro e humano, indispensável para promover o alargamento dos benefícios da Cooperação de Consumo a maior número de consumidores e melhorar o serviço que presta.

O maior potencial financeiro assentaria na concentração dos capitais e na redução das despesas, visto que hoje os gastos de administração e armazenagem, que estão multiplicados pelo número de cooperativas, seriam diminuídos. Uma só contabilidade, uma só secretaria, um único armazém substituiriam a multiplicidade de actividades iguais que agora se observa.

O exemplo que nos está dando a concentração da distribuição domiciliária no Armazém Regional de Lisboa, a qual baixou as despesas, que com essa distribuição tinham as cooperativas, do cerca de 18% para 6%, é suficientemente comprovativo das vantagens da unidade de serviços e tem (de), por conseguinte, encorajar decisões mais amplas no mesmo sentido.

Seguindo os exemplos de além fronteiras, a fusão não trará um afrouxamento da fiscalização dos associados sobre a administração nem diminuirá as relações de camaradagem entre eles. As actuais sedes das cooperativas locais ou de bairro continuarão a existir como centros de convívio e recreio e, fundamentalmente, como postos de venda da Cooperativa Única.

Além disto será naturalmente nelas que se reunirá a Assembleia Geral dos associados do núcleo local. Como centros de convívio e de reunião as sedes das actuais Cooperativas continuarão a garantir o exercício da função educativa e de propaganda cooperativa. É evidente que esta dupla função será desenvolvida e melhorada a partir da Cooperativa única, como consequência das suas maiores possibilidades.

Conscientes sinceramente das úteis consequências da fusão das Cooperativas de Consumo, desejamos, com a maior esperança, que os sonhos dos melhores cooperativistas, tenham uma perfeita realização e quanto mais depressa se percorrer o caminho para atingir tanto melhor para os consumidores. 

 
BREVES CONSIDERAÇÕES

  por João Salazar Leite ( joaoleite@cases.pt )

 

O que teria sido do cooperativismo de consumo em Lisboa se a ideia se tivesse concretizado?

Anos mais tarde viria a nascer a Cooplisboa, mas à época as pequenas cooperativas de bairro ou estavam já extintas ou para lá caminhavam na sua esmagadora maioria. Em 1966 a movimentação proposta, certamente com o beneplácito da Unicoope que era detentora do Boletim, poderia ter levado a resultados diferentes, mas a dúvida subsistirá sem resposta.

Dizer ainda, que 1966 assistiu à aprovação pela ACI dos novos princípios cooperativos, ditos de Viena, um dos quais o novel princípio da intercooperação. Colaborações entre cooperativas, conducentes ou não a fusões como a proposta no artigo, eram então motivo regular de discussão entre cooperadores de todo o mundo, e o Boletim, porque a Unicoope era membro da ACI, sempre deu relevo a posições internacionais nas suas páginas, certamente refletidas pelos dirigentes das nossas cooperativas também.

 


O COOPERATIVISMO PORTUGUÊS EM 1966

  pela Redação

  Boletim Cooperativista nº 159

  Janeiro de 1967

 

Cooperativismo de consumo: Expansão, iniciativas novas, acerto de posições

Cooperativismo agrícola: Expansão, organização de estruturas, progresso nítido de algumas sociedades cooperativas

Cooperativismo de habitação: Poucos ou nenhuns progressos Outros sectores: Mediocridade

O ano de 1966 terminou e pode dizer-se que deixou nos cooperadores boas recordações. Não se pode dizer que só tenham havido aspectos positivos nos acontecimentos cooperativos, mas a verdade é que, perante o marasmo de algumas décadas, o que se tem conseguido nos diversos sectores cooperativos nacionais nos últimos anos é impressionante e surpreende mesmo os mais cépticos.

No respeitante ao cooperativismo de consumo o surto de expansão continuou: as cooperativas abriram novos postos, e aumentaram o seu movimento; foi criada uma nova cooperativa em Lisboa; houve algumas reformas administrativas; foi criada uma nova cooperativa no Porto; no Ultramar parece desenhar-se um desejo de expansão muito interessante; por último, a UNICOOPE (que agrupa a totalidade das cooperativas de consumo metropolitanas) continua a sua reestruturação e a sua expansão.

O Cooperativismo agrícola é já uma realidade em Portugal. Numa orientação que não tem sido isenta de defeitos, mas a que se não nega utilidade, têm-se assistido à dinamização da parte de alguns departamentos oficiais de apoio à criação e desenvolvimento de cooperativas agrícolas em especial adegas, cooperativas frutícolas e outras; ultimamente num caminho certo, a nosso ver, parece desenhar-se a ideia de criação de cooperativas polivalentes em várias regiões do País; infelizmente ainda mal conhecida, desenvolveu-se uma acção, a todos os títulos meritória, na região do Nordeste transmontano, que está a transformar uma região de emigração maciça numa região «onde vale a pena viver»; continua a acção meritória da Fundação Gulbenkian que, através do seu Centro de Estudos de Economia Agrária, realizou mais um seminário sobre cooperativismo agrícola colaborado por eminentes especialistas estrangeiros; por último assinalemos a acção valiosa, para a divulgação do cooperativismo agrícola, do programa TV RURAL da responsabilidade do Eng. Sousa Veloso.

No sector habitacional o marasmo continua, pois, na nossa opinião, há um erro inicial da estrutura das cooperativas de habitação, que conjuntamente com as dificuldades de obtenção de créditos em condições idênticas às de alguns países da Europa Ocidental, não permite que as cooperativas de habitação sejam úteis às classes mais desfavorecidas. Por outro lado, a falta de uma orgânica, que aproxime as cooperativas de habitação e as leve a tomar iniciativas comuns para rever orientações erradas, continuou a ser notória em 1966.

A situação das poucas cooperativas de carácter cultural não é nada brilhante: e para além da actividade da Cooperativa «Gravura» que pouco sobressaiu em 1966, e da «Árvore» que realizou algumas iniciativas interessantes, mas pouco divulgadas, foi talvez a cooperativa «Pragma», que se mostrou mais dinâmica. Quanto ao Ateneu Cooperativo, com larga acção na difusão cooperativa há alguns anos atrás, a sua actividade foi reduzidíssima.

Resta-nos assinalar que se deu um recrudescimento de interesse pela solução cooperativa em muitos aspectos da vida social portuguesa, o que só pode ser consolador para aqueles que há muitos anos se empenham numa obra séria aceite hoje em todo o mundo, por todas as correntes de opinião.

 

 
BREVES CONSIDERAÇÕES

  por João Salazar Leite ( joaoleite@cases.pt )

 

 

Um balanço deste tipo não o fez o Boletim em anteriores anos, mas começou a fazê-lo nos anos seguintes. Daí o termos escolhido o artigo para comentar. Primeira nota para as cooperativas de consumo, à época já existentes em bairros, freguesias, mas também empresas e profissões. Todavia, não se fala das fusões, nem do Armazém único ou da aplicação do plano Ames.

Em matéria de cooperativas agrícolas desvenda-se o segredo da sua implantação nacional, a acção das estruturas oficiais que tiveram papel essencial na construção das estruturas que viriam a ser posteriormente geridas pelas cooperativas, com dirigentes obviamente selecionados em função do conhecimento público, leia-se do regime, e não da escolha pelos seus pares. Muitos dos problemas pós Abril no setor tiveram a ver com tal facto, isto é, abandonadas a si próprias pelo Estado, muitas cooperativas viriam a fechar porque direções e corpo de associados não sentiam qualquer espírito ou motivação cooperativa para seguir em frente.

No ramo da habitação, ao qual o Boletim a partir daqui viria a dar especial atenção, com alturas em que se chegaria a publicar suplementos e encartes sobre problemas habitacionais, existiam apenas cooperativas de propriedade resolúvel, não sendo aplicado o sistema do inquilinato cooperador. A reflexão sobre o ramo viria ainda a crescer após a catástrofe pluvial que se abateu sobre a região de Lisboa no final de Novembro de 1967, que foi especialmente sentida em zonas ocupadas pelas camadas mais pobres da sociedade.

 


 

O PAÍS PRECISA DE COOPERATIVAS DE CONSTRUÇÃO HABITACIONAL

  por Vasco de Carvalho

  Boletim Cooperativista nº 166/167

  Agosto/Setembro de 1967

 

Em muitos países a Cooperação tem desempenhado uma acção importante no debelamento da crise habitacional. Podem citar-se êxitos bem vincados que demonstram quanto vale a força criadora dos homens quando, unidos, querem usá-la em seu benefício.

Dói-nos ter de dizer que, perante a crise da habitação no nosso país, a Cooperação esteve e está praticamente ausente. Quando o dizemos não ignoramos que existem na país algumas sociedades intituladas de cooperativas de habitação. Elas, no entanto, ainda não souberam ou não quiseram ir mais além da sua função de associações de crédito.


Na verdade, limitam-se a estabelecer um sistema de crédito para construção de que só uma pequena parte dos seus associados pode aproveitar, ou seja aquela que dispõe de meios para adquirir o terreno e arcar com as despesas inerentes à construção, visto o crédito de que dispõe ser insuficiente e cada vez mais assim é por terem aumentado – e continuam a aumentar – as especulações com terrenos e o custo dos materiais e da mão de obra.


Não é evidente deste modo que as referidas sociedades podem atenuar a crise habitacional ou, pelo menos, satisfazer as ambições dos seus associados que para elas forem desejosos de obter o que é, depois da alimentação, a primeira necessidade do homem.


A Associação dos Inquilinos Lisbonenses já demonstrou ……. que a Cooperação de Habitação contribuirá positivamente para debelar a crise se lhe forem proporcionados terrenos a preços não especulativos e créditos a longo prazo e a juro baixo.


As sociedades que querem realmente enveredar pelo caminho cooperativo e promover a construção de casas para os seus associados, de modo a satisfazer todos e não apenas uma minoria economicamente mais apta, têm de federar-se para poderem, assim unidas, estabelecer um plano de construção habitacional e conseguir do Estado e das autarquias a ajuda no que se refere a terrenos e a crédito.


A união das cooperativas de habitação em federações não é uma ideia ocasional; é praticada correntemente e a experiência adquirida em diversos países justifica-a plenamente. Nestes, as federações procuram finalidades que, por si só, dão a medida da sua utilidade e que são de um modo geral as seguintes:

  • Difundir a doutrina e os métodos da Cooperação habitacional entre os associados das cooperativas filiadas e também no público em geral.

  •  Auxiliar as Cooperativas na elaboração de projectos de construção, na planificação do seu programa de construções e dar-lhes assistência técnica durante a sua execução.

  •  Dar-lhes assistência jurídica e aconselhá-las na aplicação dos métodos cooperativos.

  •  Representá-las perante os poderes públicos e procurar obter destes ajuda para a execução dos planos de construção.

  • Comprar, armazenar ou mesmo fabricar materiais de construção com o fim de os fornecer às cooperativas a preços favoráveis.

  • Adquirir ou alugar máquinas de construção civil.

  • Procurar obter terrenos urbanizados ou para urbanizar com o fim de defender as cooperativas da especulação!


O nosso país precisa, dada a crise habitacional que nele se verifica, de verdadeiras cooperativas de construção, unidas entre si com estes mesmos objectivos. Só assim teremos Cooperação de Habitação e poderemos para ela canalizar as esperanças de muitas famílias sem lar próprio ou condigno.

 

 
BREVES CONSIDERAÇÕES

  por João Salazar Leite ( joaoleite@cases.pt )

 

À época existiria um deficit de 500.000 fogos, residiam em barracas mais de 16000 famílias, barracas em que só 5% possuíam água e luz, só 14% instalações sanitárias, só 42% cozinha.

Hoje a crise do cooperativismo habitacional mantém-se, mas agora pelos motivos inversos, casas a mais, terrenos a menos, crédito quase nulo. As barracas tendem a desaparecer, sendo ‘chutadas’ para os subúrbios das grandes cidades, mas os centros destas esvaziam-se e as casas deterioram-se.

As cooperativas de construção de habitação passaram a chamar-se cooperativas de habitação ou de habitação económica com o 25 de Abril, e muitas há especializadas na construção de segunda habitação.

Quanto ao agrupamento em uniões ele acontece, existindo ainda uma federação como órgão representativo, diria mesmo um dos últimos sustentáculos de um ramo em plena crise.

Saída poderá ser a multisetorialidade, com as cooperativas a prestar todo o tipo de serviços aos seus membros, da lavandaria ao café, da creche ao supermercado, preferencialmente uma loja de uma cooperativa de consumo da zona.

 


AGRUPAMENTOS COOPERATIVOS DAS PEQUENAS EMPRESAS

  pela Redação

  Boletim Cooperativista nº 173

  Abril de 1968

 

As pequenas cooperativas devem pensar no futuro. A sua concentração ou a sua fusão são muitas vezes apresentadas como soluções supremas para lhes dar a organização adequada às circunstâncias. No entanto, deve admitir-se que o progresso não é obrigado a seguir apenas a via da grande sociedade anónima.

As pequenas empresas de produção, de origem artesanal, são indispensáveis à estrutura equilibrada de uma nação e ao seu desenvolvimento económico e social e conservam faculdades de adaptação insubstituíveis.

É verdade que encontram diversas dificuldades: isolamento no meio da concorrência, insuficiência de meios financeiros e comerciais (por exemplo, a dificuldade de estarem presentes nos mercados internacionais). Pode dizer-se, por isso, que as pequenas empresas não têm a envergadura desejável.

Por conseguinte, é necessário reduzir as dificuldades que sofrem, sem fazer desaparecer as virtudes que lhes são próprias e que se devem essencialmente ao valor dos seus animadores.

Promover a fusão dos capitais, sim, mas não a dos homens. Estes devem unir-se e associar-se para vencerem em comum os inconvenientes da sua condição económica. É este um dos aspectos essenciais da acção cooperativa.

O estatuto jurídico das cooperativas apresenta vantagens de pôr, em termos de Direito, os princípios essenciais do êxito de uma associação de homens para exercer uma acção económica. Inclusivamente, cada associado deve ser tratado com o mesmo respeito, com igual dignidade. Ninguém pode dominar o grupo ou ditar a sua Lei e, inversamente, o grupo não deve poder oprimir o associado. Todavia, o êxito não pode surgir enquanto métodos modernos de organização, muito pouco conhecidos ao nível das empresas, não forem incluídos num estatuto jurídico que permita vencer todas as reticências psicológicas.

 

 
BREVES CONSIDERAÇÕES

  por João Salazar Leite ( joaoleite@cases.pt )

 

Qual a dimensão ideal de uma cooperativa? A questão nunca teve uma resposta unívoca. Dir-se-á, depende do projeto que se pretende levar à prática e em que meio ele se desenrolará.

A cooperativa é simultaneamente associação e empresa. Pode fazer sentido a fusão para se ganhar dimensão num mercado, mas se os corpos de membros não estiverem a 100% dentro do processo de fusão no apoio às direções de cada cooperativa a fusionar, no futuro serão maiores os problemas a vencer que as vantagens obtidas.

Por isso é que é tão motivante criar uma cooperativa, por isso é que é tão intenso o processo de luta diária pela harmonia e pela condução do grupo de membros para o destino pretendido. Mas há que ter em conta que o condutor não vá deixando os passageiros pelo caminho, por esquecimento ou por livre vontade deles mesmos, razão porque sempre dissemos que o mais difícil nas cooperativas para uma direção não é a apresentação de bons resultados económicos, é a participação social intensa e ativa dos seus membros.

 


A PROPÓSITO DO PRÉMIO ANTÓNIO SÉRGIO

  pela Redação

  Boletim Cooperativista nº 191

  Outubro de 1969

 

A recordação de António Sérgio vive bem plena de vigor no Movimento Cooperativo. Domina nas Bibliotecas das Cooperativas, no pensamento dos Cooperadores que com ele conviveram e dele receberam directamente valiosos ensinamentos, nos seus livros e noutros documentos que perpetuam a sua obra de propagandista e de doutrinário.

António Sérgio foi o maior cooperativista português, não apenas por simpatia com o sistema e com os princípios mas porque amava o Povo. Via na Cooperação um meio poderoso de melhorar a vida do Povo, de educá-lo civicamente, de ensiná-lo a auto-governar-se. A par disso acreditava no Povo, na sua capacidade de se emancipar, de criar e de conquistar um lugar digno numa Europa civilizada. «Conto com os dotes de criação do nosso povo».

Por isso os cooperativistas amaram-no como camarada de ideias e como povo que são. Recordam com profunda saudade o Mestre, o Amigo, o Camarada que permanece ao seu lado na perenidade da sua Obra.

E no entanto António Sérgio, que esteve sempre presente no Movimento Cooperativo, nunca foi um chefe de cooperativistas. Nunca o quis ser. O que o preocupava acima de tudo era criar um espírito cooperativista, que ele definiu assim: «Fomentar o amor do próximo; fazer servir o desenvolvimento económico à elevação do nível intelectual e ético; procurar, de preferência a tudo, o enobrecimento da vida social dos homens; matar o egoísmo pela acção cooperativa, baseada sempre no dom de si próprio, – o mais generoso, o mais nobre e inteiro.»

Não foi também um fundador de cooperativas. O que lhe importava era formar cooperadores conscientes, porque só estes podiam constituir a base de um verdadeiro movimento cooperativo dirigido à construção de uma vida melhor e à economia cívica do Povo.

Como objectivo último do movimento cooperativo apontava António Sérgio, a criação «no País de um Sector Cooperativo de apurada organização e bastante completo, pela ligação das cooperativas dos diferentes tipos (de consumo, de produção, de habitação, de crédito, de seguro, de mão-de-obra, etc.) formando um sistema de auxílio mútuo e de progressivo planejamento das relações económicas.»

Os cooperadores portugueses não esquecem António Sérgio, nem os seus ensinamentos, nem os objectivos que lhes apontou. O «Boletim Cooperativista» ao instituir o Prémio «António Sérgio», não pretende lembrar a sua figura de grande português porque ela é inesquecível mas prestar-lhe uma homenagem em concordância com uma das suas vontades que repetidamente expressou: promover a divulgação dos princípios, da doutrina e das realizações cooperativistas.

 

 
BREVES CONSIDERAÇÕES

  por João Salazar Leite ( joaoleite@cases.pt )

 

O ano começara com a morte de António Sérgio. No cabeçalho do Boletim passou a constar Fundado por António Sérgio. O conteúdo era já muito diferente do que foi o seu nos primórdios, mas agora todos os números serviam para recuperar excertos da doutrina do Mestre.

À frente da direção estava agora Faustino Cordeiro, a quem se saúda, e a quem se pede que um dia venha a relatar episódios da passagem do Boletim do círculo dos fundadores para o da direção da Unicoope.

É urgente que se faça a história do cooperativismo português também na passagem de regimes, e o Boletim é parte da história, tal como nos faltam relatos do cooperativismo vivido pós Abril na boca dos seus protagonistas.

O artigo fala de um Prémio que visava premiar monetariamente o melhor artigo na Imprensa Diária e Regional. Acabaria por ser premiado um artigo de Luís Rosa Duarte saído no ‘Século’.

Quis o destino que nesta mesma altura em que se escreve esteja lançado um novo Prémio António Sérgio pela CASES, agora para premiar Boas Práticas na economia social, Estudos e Trabalhos de Investigação, e Trabalhos Escolares, e que as candidaturas comecem a chegar na própria semana em que se escreve.

Sérgio continua, pois, vivo e o seu contributo, a sua marca, bem visível.


PARA A HISTÓRIA DA UNICOOPE

  Entrevista com Fernando F. Costa

  Boletim Cooperativista nº 196

  Março de 1970

 

  1. Foi o Senhor um dos que estimulou a criação da UNICOOPE. Pode dizer-nos algo sobre os objectivos iniciais?
    Tive de facto a honra de ser um dos promotores da criação da Unicoope. Se fizermos uma breve retrospectiva, verificamos que desde a fundação deste boletim em 1951, procuraram os militantes cooperativistas promover a criação de órgão de tipo federativo que permitisse uma melhor estruturação do movimento. E assim, no ano seguinte, entraram em funcionamento as Juntas de Compras do Porto e Lisboa, como fase preparatória dum armazém central. Este processo evolutivo foi claramente explicitado no número 13 do Boletim, em Outubro de 54, em que se publicava também o Projecto de Estatuto da Unicoope: uma evolução orgânica pautada pela viabilidade prática. António Sérgio, numa entrevista concedida a este mensário, (nº54), declarava que »antes da criação do Boletim, existiam entre nós cooperativas, mas creio que faltava um movimento cooperativo propriamente dito, e que os cooperadores portugueses não concebiam o intuito de criar um sector cooperativo completo». Afigurava-se, pis, a quantos lutaram pela fundação da Unicoope, verificada em Dezembro de 55, que estavam contribuindo para a construção duma etapa decisiva, sem a qual não era possível ir mais além. Mas de forma alguma se pretendia um organismo de tipo federativo anquilosado, como o provou a Reunião Magna de Julho de 56. Desejava-se enfim que a Unicoope constituísse uma alavanca para o futuro do movimento cooperativo, como aliás as juntas de Compras o haviam sido em relação àquela união.

  2. Como encara a actual situação da UNICOOPE?
    Decorridos quase doze anos sobre a constituição da Unicoope, creio que os cooperadores têm fundamentadas razões para se sentirem orgulhosos de tal facto. Existe uma organização capaz de fazer convergir os esforços das organizações de base, e de lhes transmitir o reforço duma integração racionalizada.
    Mas, decorrido um período que ultrapassa o decénio, é imprescindível rever a evolução havida, e verificar se o seu ritmo de expansão correspondeu ou corresponde às necessidades presentes. Creio não estar completa a estruturação orgânica do movimento cooperativo sendo, por esse facto, necessário agir-se contra o imobilismo, tendente a considerar a fase actual como definitiva. Debater o passado e analisar o presente é, sem dúvida, um óptimo contributo para o futuro.

  3. Na sua opinião o Cooperativismo de Consumo tem algumas possibilidades de expansão a ponto de representar na economia portuguesa um sector influente?
    É evidente que apesar de todas as apreensões, ninguém pode duvidar que o cooperativismo de consumo reflectirá uma crescente influência na economia portuguesa. O problema consiste em poder determinar em que medida esse reflexo acompanhará o ritmo de expansão dos restantes sectores. E para análise deste problema, torna-se imprescindível não só uma noção exacta e imparcial do nosso actual evoluir económico, como pautar a adequação da actual estrutura cooperativa com a realidade presente.
    Ultrapassada a fase meramente apologética do cooperativismo, sucedeu-lhe a da análise das condições internas das organizações de base e da sua interligação. Mas presentemente surge, cada vez com maior evidência, que o movimento cooperativo não pode ser analisado sem ter em consideração o sentido da evolução dos restantes sectores da economia portuguesa.
    Pessoalmente, creio não ser demasiadamente tarde para que o Cooperativismo de consumo possa expandir-se de modo a representar um influente sector. Mas não tenho também dúvidas que a evolução deste último decénio apresentou graves deficiências, e que se torna necessário introduzir factores de aceleração, mesmo que estes obriguem a re-pensar a estrutura actual do movimento.

 

 
BREVES CONSIDERAÇÕES

  por João Salazar Leite ( joaoleite@cases.pt )

 

Ferreira da Costa estava afastado do dia a dia do Boletim nesta época, mas continuava a ser ouvido e a acompanhar o que se ia passando.

Quando a Unicoope se preparava para dar o passo para a abertura de supermercados cooperativos com a marca DOMUS, segunda fase do plano Ames, abriam-se brechas nas cooperativas de consumo em muitos países desenvolvidos, dada a concorrência progressivamente multinacional de algumas empresas retalhistas de produtos alimentares. Mais uma vez um exemplo da atuação portuguesa em contraciclo ao que a história determinava, mas a direção da Unicoope, que se aprestava para aderir à Aliança Cooperativa Internacional, estava sobre estes aspetos dotada da informação mais atualizada.


PRINCÍPIO DO FIM DO COOPERATIVISMO EM CIRCUITO FECHADO

  por Fernando Mateus

  Boletim Cooperativista nº 205

  Dezembro de 1970

 

Com a inauguração do supermercado cooperativo da Unicoope, ocorrida no passado dia 10 de Outubro de 1970, encerra-se uma época longa de quase um século e abre-se uma nova era que se pretende bem dilatada, também, para o cooperativismo de consumo nacional.

Na verdade, a nova unidade cooperativa agora criada significa o rompimento com o passado e um compromisso com o presente e o futuro. Esta ruptura com um sistema que orientou durante tantas décadas a actuação das cooperativas de consumo, note-se, não constitui, de modo algum, a condenação do passado. Pelo contrário, ela vem demonstrar que o trabalho feito foi extremamente válido e importante, pois a opção actual não seria possível sem a base cooperativa laboriosamente edificada por gerações de cooperadores, a quem nesta hora é devida respeitosa gratidão.

O primeiro supermercado cooperativo, implantado na cidade do Porto representa, pois, uma mudança de rumo, uma viragem porventura espectacular na forma, mas profundamente realista e objectiva. Ele marca a passagem a um estádio superior de intervenção na economia do consumo e preludia a criação do contra-poder económico que deve armar o movimento cooperativo de consumo para que este desempenhe verdadeiramente o papel que lhe cabe na defesa da economia dos consumidores.

Deve, portanto, entender-se este passo como o primeiro duma longa caminhada que culminará naquele objectivo e que deverá ser percorrida com esforço, abnegação e inteligência. As cooperativas, como células dum movimento que terá de basear-se na unidade como condição primeira para poder firmar a sua presença e intervenção, cabe a parcela mais importante daquele esforço. Cumpre-lhes, por isso, desbravar esse caminho, abrindo os sulcos que permitirão a passagem ao movimento cooperativo em marcha.

A cooperativa isolada, entregue ao seu próprio destino, debatendo-se desesperadamente na procela desencadeada pelo maremoto económico, fez a sua época. Desempenhou um magnífico papel, mas o pano baixa sobre a sua actuação. Merece bem os aplausos que daqui lhe tributamos. Não morreu! Inicia agora o seu processo de metamorfose que dará lugar a um cooperativismo novo, adulto: o COOPERATIVISMO ABERTO A TODOS OS CONSUMIDORES.

Ao «cooperativismo em circuito fechado» sucede um cooperativismo aberto e expansivo, fruto duma maturidade que atingiu o ponto ideal e o momento propício para utilizar plenamente as suas potencialidades na edificação da «cidade» cooperativa que se projecte definitivamente na vida do país, não como uma curiosidade, não como uma excrescência original a ser admirada só por isso, mas como um factor positivo e importante, pela sua acção, na estrutura económica da nação.

Trata-se, assim, numa nova etapa da caminhada que o cooperativismo tem de cumprir, para ocupar o seu lugar na vanguarda das massas consumidoras como escudo protector e dissuasor. Esse lugar (que não restem dúvidas a ninguém!) não poderá ser desempenhado confinando as forças consumidoras aos limites das cidadelas cooperativas dispersas pelo território, como feitorias avançadas marcando uma presença simbólica que o içar rotineiro de uma bandeira assinala como revelação da vida interior. O cooperativismo de consumo tem que actuar, conduzindo as massas consumidoras através do labirinto do acampamento das forças contrárias, instalando-se no mercado por forma a equilibrar a relação das forças em confronto. Essa é a sua grande e autêntica missão. Esse é o significado do primeiro passo que acaba de dar.

Saibam os cooperadores ser responsáveis ao ponto de jamais fraquejarem no apoio a novos passos que terão de ser dados!

Saibam os cooperadores compreender que o cooperativismo não pode ser um movimento fossilizado mas um organismo vivo, adaptável e expansivo!

Saibam os cooperadores reconhecer que a união faz a força!

… E O MOVIMENTO COOPERATIVO OCUPARÁ O SEU LUGAR À FRENTE DAS MASSAS CONSUMIDORAS, PARA SUA DEFESA E MORALIZAÇÃO DA ECONOMIA NACIONAL.

 

 
BREVES CONSIDERAÇÕES

  por João Salazar Leite ( joaoleite@cases.pt )

 

A história não viria a dar razão ao articulista quanto ao desaparecimento das pequenas cooperativas. Os supermercados DOMUS estariam ligados ao fim da Unicoope, tendo alguns sido retomados pelas cooperativas de base que eram filiadas da União.

O que ficou foi o serviço pelas cooperativas de consumo a não membros, abrindo-se aos dirigentes dessas cooperativas o pensar em formas para que esses não membros vissem vantagens em se tornar membros plenos.

Por fatores não totalmente de sua responsabilidade, atravessamos hoje nova crise em algumas zonas do país que viram fusões de cooperativas de consumo. A crise mundial, e o corte do crédito bancário às cooperativas, vieram agravar um ou outro erro de gestão de direções empolgadas pela dimensão maior, e não pelo alicerçar de bases sólidas. Mas, muitas vezes, pergunta-se se, por detrás desse corte de crédito, não estará a mão da concorrência que sempre usou o ‘poder’ melhor que as cooperativas, crentes de que a independência e o perfil silencioso eram preferíveis.

O artigo presente inicia no Boletim uma polémica refletida pelo artigo seguinte e que mereceria da redação um apelo ao aprofundamento da discussão.


        Textos 28 a 36
 

           Textos 46 a 54

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